Join MultiplyOpen a Free ShopSign InHelp
MultiplyLogo
SEARCH

MUDNEWS (by Leticia Vasconcellos)

Journal

Blog EntryMay 13, '12 3:41 AM
for everyone

Fumou em lugar fechado, leva multa. Jogou lixo no chão, leva multa. Andou de bicicleta em tuneis para pedestres, leva multa. Atravessou a rua sem passar pela faixa, multa. À primeira vista, Cingapura parece o filme Demolidor com seus milhares de castigos financeiros. Ah! E corporais também. Não podemos esquecer das chibatadas que fazem notícia mundo afora. O código penal de Cingapura prevê punição por chibatadas para mais de 30 infrações, incluindo a tomada de reféns, assalto, roubo, formação de gangues, homicídio, uso de drogas e vandalismo. O "caning" também é uma pena obrigatória para determinados crimes, tais como estupro, tráfico de drogas ilegais, não pagamento de empréstimos, e para visitantes estrangeiros que ultrapassam o visto de 90 dias. (Nota mental: não perder o voo de volta).

É uma pena que as notícias que chegam do país sejam sempre sobre as proibições, as quais os cingapurianos seguem à risca, dois atos tão alheios à nossa cultura. A cidade-estado vai muito além, com um espírito empreendedor e moderno, refletido na arquitetura avant garde, nas esculturas espalhadas pelo centro e na moda prática e elegante. Aliás, a moda foi uma das primeiras coisas que chamaram minha atenção. As mulheres de Cingapura são extremamente femininas, abusando de vestidos soltinhos ou justos, sempre marcando bem a cintura e usando acessórios e maquiagem simples, porém diferentes, em uma releitura de um estilo clássico. Dica para os solteiros: apesar da fama das tailandesas, as cingapurianas são bem mais bonitas.

O urbanismo da cidade também é impressionante. Não há fios de eletricidade, pichações, ou sujeira nas ruas. De alguma maneira, os arranha-céus convivem harmoniosamente com os edifícios de dois andares da época colonial, que, aliás, são muito bem conservados. Há árvores e parques por toda parte e o trânsito flui milagrosamente bem, com um ótimo sistema de transporte público. Se multas são a mágica que fazem um país funcionar, o que estamos esperando para soltar o talão de cheques?

Na verdade a transformação de Cingapura é um fato historicamente recente, fruto de medidas governamentais dramáticas em uma população que estava mais do que sedenta por mudanças. Depois de passar pelo colonialismo inglês, a invasão japonesa durante a segunda guerra mundial e disputas políticas com a Malásia – da qual já fez parte – Cingapura finalmente estabeleceu uma república independente em 9 de agosto de 1965. O país estava falido e arrasado, com uma grande porcentagem da população sem ter onde morar, sem uma fonte de renda (o país não tem grandes riquezas naturais) e problemas sérios de saúde pública, como epidemia de cólera e outras doenças.

As medidas do novo governo foram cruciais para criar o país que vemos hoje. A prioridade era atrair indústrias oferecendo incentivo fiscal para gerar empregos. Em paralelo, o país investia pesado em educação – inclusive técnica, para atender a indústria – e na construção de milhares de moradias populares. Em 1990, Cingapura já havia se tornado uma das nações mais prósperas do mundo, com uma sólida economia de mercado, fortes relações internacionais e o segundo maior PIB per capita da Ásia, atrás somente do Japão.

É claro, nem tudo são flores. Nós conhecemos um senhor de 73 anos que tinha muito o que reclamar do país. “É um dos lugares mais corruptos do mundo, construído em cima de aparências, com um sistema de saúde público falho que não atende a população local,” desabafou o tiozinho cingapuriano que trabalha no setor de mineração. Há também quem aponte para as tendências totalitárias, já que há regras muito restritas para atividades políticas (como passeatas), a mídia é altamente controlada e falta imparcialidade para o poder judicial. Apesar de haver alguns blogs sobre o assunto, é muito difícil avaliar essas questões passando apenas alguns dias na cidade. Para quem chega, a impressão geral é de que tudo funciona, desde o trânsito, até políticas sociais. Afinal, não se vê um único pedinte ou crianças pobres perambulando pela rua.

Nós adoramos descobrir Cingapura e seu povo simpático e educado. A gastronomia aqui é super desenvolvida, com restaurantes caros de chefs premiados, wine bars, ou vendinhas de comida local por 3 dólares espalhadas pelos bairros de imigrantes, como Chinatown (surpreendentemente limpa e organizada) ou Little India. Perto da marina, há também bistrôs especializados em frutos do mar, com grandes aquários cheios de lagostas ou caranguejos gigantes do Alasca. Para os que curtem a night, as opções de balada são ricas e variadas, com clubs e DJs de renome, ou lounges chiquérrimos como o Marina Bay Sands, um hotel com arquitetura marcante que tem uma vista maravilhosa e provavelmente os drinques mais caros do país.

Sentimos que Cingapura tem um espírito bem distinto dos outros países asiáticos. Ao mesmo tempo em que cidade-estado dita tendências para o continente, também preserva os templos e construções do passado. É um lugar caro, onde a qualidade é reverenciada, mas todos se vestem de forma simples e elegante, sem muita ostentação. É o país das proibições, mas aonde mais vimos formas individuais de expressão, como tatuagens, espaçadores nas orelhas, e cortes de cabelo diferentes. Mesmo com sua aparência perfeitinha, consideramos a cidade um enigma. Um a ser desvendado com mais tempo em alguma outra viagem pelo país.

Fotos: http://mudnews.multiply.com/photos/album/261


Blog EntryMay 9, '12 9:09 AM
for everyone

Quando chegou a hora de ir para a Malásia, estávamos animados. Foi meio difícil nos despedirmos do Andrezinho, que acompanhou a gente pelo Vietnã e Camboja (a saudade de casa está apertando cada vez mais), mas pelo menos nos separamos com a perspectiva de conhecer um país asiático bem desenvolvido, organizado, com pessoas super simpáticas. Ou assim a gente achava.

Já dizia Forest Gump, “life is like a box of chocolates, you never know what you´re gonna get.” Desembarcamos em Kuala Lumpur, capital da Malásia, no dia 28 de abril, coincidentemente, o dia do protesto nacional por eleições limpas. Descemos do metro bem em meio a uma multidão de mais de 20 mil pessoas vestidas de verde e amarelo (cores que representam limpeza), que cantavam e gritavam lemas políticos. Não tinha como escapar, nosso hostel, o White Reggae Mansion, ficava a duas ruas dali.

Devagar e com jeito, fomos passando com as malas pelos malaios que confirmaram a imagem de povo educado. Todos abriam espaço e brincavam: “mas que sorte, hein! Vieram conhecer Kuala Lumpur justo hoje!” O clima era mais de um show ao ar livre do que de passeata, como bexigas gigantes e batucada. Pelo menos no começo.

Enquanto almoçávamos, notamos uma barulhada fora do comum do lado de fora. Era a multidão que corria avenida abaixo para fugir do gás lacrimogêneo da polícia. Curiosos, fomos espiar pela janela do hostel para ver o que estava acontecendo. Centenas de policiais haviam tomado as ruas e faziam sinal com as mãos para os poucos protestantes que restavam, como se chamando para a briga. Qualquer um que vestia a camisa verde ou amarela, mesmo que simplesmente parado na calçada, era atacado pelos policiais com tapas na cara, chutes e outras agressões. Ficamos pasmos.

 De repente, um policial exaltado deixa a avenida principal e vem correndo em direção ao albergue. Entramos rapidamente e íamos subindo para o terraço, onde teríamos visão privilegiada dos acontecimentos, quando um americano que já estava no último andar gritou: “entrem nos quartos, a polícia vai entrar no hostel!” Depois de alguns minutos escondidos fomos entender o que tinha acontecido, o tal policial exaltado notou que os gringos no terraço estavam filmando o abuso de força da polícia e correu para o hostel, ameaçando entrar. No fim, ainda bem, era só um blefe.

Apesar da confusão ter se dissipado no final da tarde, o clima ruim permaneceu o dia inteiro. Sem poder sair do hostel (não só por precaução, mas porque todo o comércio estava fechado), ficamos dividindo as filmagens e impressões do dia com outros viajantes. Definitivamente, não foi o melhor jeito de sermos apresentados à Malásia. Para melhorar nosso cansaço e desapontamento, descobrimos que o White Reggae Mansion era um party hostel, com música ensurdecedora e bagunça até às 4 da manhã. Um inferno para quem queria acordar cedo e explorar a cidade.

No outro dia, um pouco de mau humor e sonolentos por causa da noite mal dormida, fomos caminhar pelo centro para conhecermos os famosos arranha-céus e lojinhas de Kuala Lumpur. Porém, era domingo e tudo estava fechado. Segunda decepção com a cidade! Na verdade, além da falta de sorte, nos demos conta que para nosso tipo de viagem (sem muita grana e buscando coisas diferentes), grandes centros comerciais são um pouco sem graça de visitar. A gente acaba preferindo sempre cidades menores, bonitinhas e fáceis de caminhar. Ou pelo menos lugares em que a atração principal não seja ir a shoppings e ver prédios altos. Achamos muito engraçado que um dos hostels que pesquisamos anunciava com orgulho estar no coração dos pontos turísticos da cidade: no miolo de quatro shoppings, um inclusive com montanha russa. Com certeza, não era nossa praia.

Como deu para perceber, não ficamos tristes em deixar a capital da Malásia, até porque teríamos mais dois dias por lá no final da viagem pelo país, uma segunda chance para revermos as impressões iniciais. Penang, nosso próximo destino, prometia ser um lugar mais tranquilo, perto da praia, e com uma forte presença de imigrantes chineses e indianos. A ideia era experimentar mais da mistura cultural que é a base da Malásia. Recebendo imigrantes de várias regiões desde o século X, o país é extremamente multicultural e tolerante com religiões diversas. É inclusive muito comum ver mulheres mulçumanas cobertas da cabeça aos pés e outras de vestidos curtos dividindo as mesmas avenidas.

Infelizmente nossa sorte não mudou com a troca de cidade. Tínhamos agendado para nos buscarem no aeroporto, mas ninguém apareceu e ficamos esperando quase duas horas. Depois, ao chegar no hotel, nosso quarto, que parecia mais uma dispensa, não estava pronto. Quando decidimos fazer o upgrade de acomodação, a recepcionista não queria repassar o depósito prévio e ainda foi bem mal educada. Afe! Com tudo resolvido, deixamos as malas no quarto e fomos comer em um café nos arredores para espairecer, mas o garçom era um grosso e nos atendeu super mal. Estávamos começando a achar que erramos ao escolher o país para integrar o itinerário asiático.

Nessas horas é importante parar, ir para um lugar tranquilo e colocar os acontecimentos em perspectiva. Todo mundo tem dias em que as coisas parecem não emplacar, e em viagens – especialmente viagens longas de volta ao mundo – isso é fadado a acontecer mais cedo ou mais tarde. Situações desagradáveis fazem parte da vida, é impossível controlar tudo, apesar de ser possível escolher como reagimos a elas. Nós resolvemos caminhar meio sem rumo por Little India, o bairro de imigrantes ao lado do hotel. Foi a decisão certa. Conhecemos vários templos interessantes, matamos saudades do naan, (o pão indiano que adoramos) e reencontramos o calor humano e hospitalidade do indiano, com certeza o povo mais amigável e gentil que conhecemos em nossas andanças pelo mundo.

Recobrado o olhar viajante, os dias restantes em Penang foram calmos e gostosos. Visitamos alguns templos, abusamos da comida indiana e caminhamos bastante pela arquitetura mista da cidade. Apesar de não termos vivido nenhuma grande aventura, foi um ótimo jeito de preparar o espírito para os dias relaxantes na nossa próxima parada, as paradisíacas Ilhas Perhentian.

Saí do speed boat em Perhentian, e pensei: “Nossa! Olha o set do filme Lagoa Azul!” Nosso hotel ficava em uma linda praia de areia branca com mar azul e calmo, contornada por morros cobertos de floresta tropical. Um refúgio digno de filme, com certeza.

A ilha é famosa entre mergulhadores, e nós pretendíamos aproveitar bem essa fama. As vistas subaquáticas são inesquecíveis, com tapetes de corais coloridos, milhares de peixes, tartarugas, barracudas, e outras espécies. Como em Cape Town, mergulhamos novamente com tubarões, mas dessa vez sem gaiola. Dezenas da espécie ponta-preta rodeavam numa boa o lugar em que fazíamos snorkel. Debaixo d’água a vida parece tão tranquila, que você até esquece que mesmo um filhote do bichano pode te fazer um grande estrago. Quando um deles começou a nos rodear mais frequentemente, entendemos que aquele era seu território e voltamos para o barco.

O tempo em Perhentian tem seu próprio momento e nós deixamos que ele ditasse seu ritmo. Curtimos bem o não-fazer-nada, intercalado com passagens por restaurantes (só para comer, já que é proibida venda de álcool na ilha) e passeios na praia. Também aproveitei o momento para curtir meu novo hobby: catar lixo da areia. Todos os dias eu pegava uma sacola no hotel e passeava na orla retirando garrafas de plástico, latinhas e outras porcarias. Não que a praia fosse imunda, mas as pessoas não parecem se importar em deixar lixo por aí, principalmente os moradores locais. Me entristece muito ver reservas magníficas mal cuidadas. A continuar pelo o que temos visto em algumas praias, a próxima geração terá poucos lugares idílicos para visitar. Para mim, uma praia naturalmente linda, mas amontoada de lixo, perde sua beleza.

Enfim, veio a hora de deixar esse paraíso com palmeiras. Voltamos para Kuala Lumpur, mas acabamos não ficando muito pela cidade. Resolvemos visitar Melaka, uma cidadezinha a duas horas de ônibus que já foi colônia portuguesa, holandesa, inglesa e japonesa. Infelizmente, o legado arquitetônico de sua rica história quase não existe mais, pois cada colonizador destruía as edificações deixadas pelo anterior. De novo, acabamos voltando para o hostel um pouco frustrados.

Talvez tenha sido um pouco de má sorte, mas a verdade é que a Malásia não nos marcou tão positivamente. Com exceção do nosso albergue na capital, os profissionais que encontramos nos demais lugares nos trataram relativamente mal, uma dissonância dos outros países asiáticos. Guardamos uma péssima impressão da polícia, dormimos mal, encontramos garçons e recepcionistas sem educação, tivemos problema com pessoas do hotel em Perhentian tentando nos passar a perna etc. Algum dia talvez tenhamos que voltar ao país para tentar enxergar melhor sua beleza. Enquanto isso, resolvemos deixar a má experiência de lado e chegar de coração aberto no nosso próximo destino, o grande país cartesiano da Ásia: Cingapura.

 

Fotos Kuala Lumpur: http://mudnews.multiply.com/photos/album/258/258

Fotos Penang: http://mudnews.multiply.com/photos/album/259

Fotos Ilhas Perhentian: http://mudnews.multiply.com/photos/album/260/260


Blog EntryApr 29, '12 12:25 AM
for everyone

“Manter você não é nenhum lucro, perder você não é nenhuma perda.” Frase do Khmer Vermelho.

Faltam palavras para expressar o sentimento após a visita aos Killing Fields de Phnom Penh. Eu, Guico e André deixamos o local mudos, pesados e pensativos. A imagem da Ásia geralmente é associada com praias, comidas picantes e um povo exótico, mas o passado da região é extremamente rico e doloroso.

O do Camboja cortou fundo.

Começamos a visita ao país por Siem Reap, uma cidadezinha de 172 mil habitantes conhecida por abrigar os famosos templos do assentamento de Angkor, a antiga capital do império Khmer. A primeira coisa que notamos foi o calor. Escaldante. Daqueles em que você acorda com o lençol colado ao corpo (amém pelo ar condicionado). No centro, as ruas são limpas, os jardins bem cuidados e há vários restaurantes moderninhos. Se você pegar uma bicicleta, no entanto, irá conhecer a verdadeira realidade do cambojano. Nos arredores, crianças nuas brincam em casas de palafita construídas em cima de valões. O cheiro é insuportável. A dura paisagem contrasta com as construções elegantes de Siem Reap e com os carrões de marca que vimos em Phnom Penh.

Como em todo sudeste asiático, Siem Reap também tem um mercado noturno com várias tendas de artesanato local. Só que lá o negócio é melhor organizado. O mercado tem um grande mapa na entrada, com divisões por tipo de mercadoria vendida, lugares de massagem e dois bares grandes. Perto também tem a Pub Street, uma rua lotada de bares onde o chopp custa 0,35 dólares. Com certeza, a bebida mais barata que já tomamos! O problema era a mosquitada. Se for se perder no custo do chopp, melhor se bezuntar de repelente.

Antes de visitar os templos, resolvemos conhecer o Museu Nacional de Angkor, com uma mostra minuciosamente organizada dos sítios antigos (entrada de 15 dólares). A informação histórica detalha bem as diferenças de cada construção, bem como o modo de vida e crenças do povo de Angkor. Nós três devoramos os filmes e textos explicativos de cada peça, sendo os últimos a saírem das instalações (os guardinhas apagaram as luzes e fecharam as portas atrás da gente). Sem a passagem pelo museu, no entanto, acho que entenderíamos pouco das belas ruínas que vimos no dia seguinte.

Angkor Wat, com suas cinco torres delineadas pelo nascer do sol, é o templo mais famoso, honrado como símbolo do país na bandeira nacional. É também o único que ainda retém um sentido religioso. Construído em uma extensão de 200 km² e seguindo o estilo clássico da arquitetura Khmer, o templo era originalmente hindu, representando Monte Meru, a morada dos deuses. Com o passar do tempo, muitos cambojanos aderiram ao budismo, cultuando uma religião com influências mistas. Angkor passou então a ser venerado como templo budista, hábito que se perpetua até os dias atuais.

Para driblar o calor e fugir da multidão, é bom chegar um pouco antes das 7:30 da manhã, quando os portões são abertos para visitação. O ingresso para todos os templos de Angkor custa 20 dólares e dura um dia, então é bom negociar uma diária com um tuktuk para ir de um canto a outro e levar água e comida. Nós, e uma centena de turistas, chegamos para ver o nascer do sol e depois ficamos perambulando com o guia pelas construções do jardim até a abertura oficial do templo. As histórias do guia com certeza adicionaram à experiência, mas se você não estiver a fim de ganhar uma sombra durante o passeio, dá para entender bastante da história e arquitetura de Angkor somente com a ida ao museu.

Sem dúvida, Angkor Wat é magnífico, merecedor da lista de finalistas das Sete Novas Maravilhas do Mundo. Nosso templo preferido, porém, foi outro. Ta Prohm, um templo erguido entre os séculos XII e XIII, foi propositalmente deixado no estado em que foi descoberto, com raízes de árvores que parecem ter sido derretidas por cima das paredes históricas, lembrando uma obra de arte surrealista.

Além de Ta Prohm, visitamos dois outros templos imponentes. Bayon impressiona com os rostos gigantes de sorriso sereno esculpidos na pedra. Já Banteay Srei, um templo de porte menor, possui entalhes decorativos em ótimo estado de conservação. A visita a templos é cansativa e começa cedo. Achamos que um dia foi o bastante, mas para os mais aficionados, dá para gastar pelo menos quatro explorando a região. Com o calor de 40 graus que parecia queimar até pensamento, a piscina do hotel acabou exercendo um fascínio mais irresistível.

Em um primeiro momento, sentimos que chegar em Phnom Penh foi como retornar para alguma metrópole asiática. As motos destemidas estavam de volta, dessa vez disputando as ruas com carrões de marca. Nosso taxista, um surpreendente conhecedor de política e economia internacional, nos explicou que a cidade está em franco desenvolvimento, atingindo uma taxa de crescimento de 13% no último ano (na internet as fontes citam crescimento de dois dígitos, mas muitas não especificam a taxa). Mesmo assim, éramos cercados de muitos pedintes na saída dos bares e pontos turísticos, deixando a pobreza do país em evidência.

Como em Angkor, visitamos o museu da cidade antes de partir para os sítios históricos. No entanto, achamos a mostra de Phnom Penh inferior. Na verdade ficamos desapontados, pois queríamos entender melhor o período do regime Khmer Vermelho, quando 3 milhões de cambojanos foram assinados em menos de 4 anos. O museu explorava somente os templos angkorianos, que nós já tínhamos presenciado ao vivo. Para quem visitar o país procurando pela mesma informação, é melhor pular o museu nacional e ir direto para o Tuol Sleng Genocide Museum.

Sem um preparo histórico, saímos do museu um pouco crus para nosso próximo destino: os killing fields de Choeung Ek. A 15 km de Phnom Penh, Choeung Ek é um documentário sobre a loucura humana com respaldo na política, que resultou no genocídio em massa de quase 25% da população do Camboja. A área do tamanho de um campo de futebol não carrega mais os prédios do regime comunista ditatorial de Pot Pol, destruídos pela população local após a queda do ditador, mas ainda abala com as valas comuns onde há restos mortais de mais de 20.000 pessoas, e os depoimentos daqueles que sobreviram o terror, contados em um áudio guia (incluso no ingresso de 5 dólares).

Pot Pol foi o líder do Partido Comunista da Kampuchea, que massacrou o Camboja de 17 de abril de 1975 (conhecido como ano zero) a janeiro de 1979. Nesse período, o tirano invadiu as cidades do país, deslocando a população para o campo. Pot Pol considerava as cidades impuras, e queria recriar um estado nacional completamente agrário. Para isso, ele destruiu a infra-estrutura existente (hospitais, cinemas, bancos, bibliotecas etc), proibiu religiões, matou ícones da cultura como artistas, músicos e intelectuais (professores, advogados e médicos) e separou famílias, enviando seus membros para diferentes fazendas de trabalho no campo. Os cambojanos eram obrigados a trabalhar dia e noite para triplicar a produção de arroz, uma das metas impossíveis do governo comunista. Ironicamente, o arroz era exportado para China em troca de armas, fazendo com que os camponeses – considerados “o povo puro” por Pol Pot – passassem fome.

Logo a visão distorcida da sociedade perfeita de Pol Pot se mostrou impossível, causando um estado de paranoia ainda maior no ditador, que aumentou a perseguição a quem fosse considerado inimigo do regime: pessoas com nível universitário, qualquer um que usasse óculos, estrangeiros, soldados do próprio Khmer Rouge que ajudassem os prisioneiros (às vezes somente a levantar), bebês oriundos de famílias suspeitas etc.

Em 1979, o Vietnã invadiu o país, liberando a população dos horrores de Pol Pot. Em um triste ato da cegueira idealista dos países ocidentais – que temiam o governo comunista vietnamita – o novo governo cambojano não foi reconhecido pelos EUA, França, Austrália, Alemanha entre outros, fazendo com que Pol Pot, que escapou pela fronteira tailandesa, fosse considerado o legítimo governante do Camboja. Tenho que dizer que depois de testemunhar os ossos e dentes quebrados misturados à terra das covas comuns, e ver a árvore onde bebês eram arremessados vivos, essa informação nos deixou enojados.

Para mim, Choeung Ek e o genocídio no Camboja são ainda mais doloridos por terem acontecido logo após as histórias do holocausto terem vindo à tona, provando que não há aprendizado para aqueles que enquadram os acontecimentos mundiais em pró ou contra posições políticas estabelecidas. Apoiar um ditador assassino por ele ser capitalista ou comunista é brincar de fla flu ideológico enquanto milhares tem sua humanidade negada.  

Os Killing Fields me emocionaram muito. Chorei, calei, fiquei atordoada. No fim, guardei o aprendizado e as palavras da comunidade budista cambojana:

“At the end of life, we will not be judged by how many diplomas we have received, how much money we have made, how many great things we have done. We will be judged by ‘I was hungry and you gave me to eat, I was naked and you clothed me, I was homeless and you took me in.’ Hungry not only for bread, but hungry for love. Naked not only for clothing, but for human dignity and respect. Homeless not only for wanting a room of bricks, but homeless because of rejection.”*

 

*Tradução:

“No final da vida, nós não seremos julgados por quantos diplomas recebemos, quanto dinheiro temos, ou quantas coisas importantes fizemos. Nós seremos julgados por ‘eu estava faminto e você me alimentou, eu estava nu e você me vestiu, eu estava sem casa e você me acolheu.’ Faminto não só por pão, mas por amor. Nu não só por falta de roupa, mas por falta de dignidade humana e respeito. Sem casa não só por desejar um quarto de tijolos, mas sim por causa da rejeição.”

 

Fotos Angkor: http://mudnews.multiply.com/photos/album/256

Fotos Phnom Penh: http://mudnews.multiply.com/photos/album/257/Phnom_Penh_Camboja_25_a_27_de_abril


Blog EntryApr 21, '12 12:18 PM
for everyone

Com população de 90 milhões, território 30 vezes menor que o do Brasil, o Vietnã é um país comunista, complicado, desigual, energético, que tira a maioria dos viajantes da sua zona de conforto. Ao longo dos séculos, o povo lutou bravamente para manter a sua unidade e integridade. Definitivamente, é um país emblemático, que faz parte da memória coletiva da geração de nossos pais, quando notícias traziam os horrores da guerra na qual os Estados Unidos usaram toda a sua máquina destrutiva, mas perderam diante da determinação do povo vietnamita.

Para nossa geração, as imagens do país são ralas, indo pouco além dos estereótipos batidos: o chapéu cônico e pontudo, o longo ao daí (traje típico feminino), a culinária picante (que eu adoro), e algumas perfunctórias noções da colonização francesa e das notícias sobre a guerra contadas por nossos pais ou pelos professores na escola.

Em nossa passagem pelo Vietnã, queríamos aprofundar a noção desse país sofrido, conhecendo um pouco mais sobre sua cultura, mas também aproveitar uns dias no litoral vietnamita, já que o André, irmão do Guico, vinha passar suas merecidas férias com a gente. Se nosso plano ambicioso funcionasse, visitaríamos a capital Hanoi, faríamos um cruise em Halong Bay, passearíamos pela cidade antiga e as praias de Hoi An, passando depois pela cidadezinha litorânea de Danang e terminando o trajeto em Ho Chi Minh, tudo em 11 dias. Seria um pouco corrido, mas pelo menos veríamos o país de norte ao sul.

A primeira impressão de Hanoi, nas margens do Rio Vermelho, é de uma cidade povoada por motos. Com sete milhões de habitantes, Hanoi deve ter uma moto para cada duas pessoas. Elas ocupam as ruas e calçadas nas mesmas proporções e carregam de tudo, a feira da semana, tubulações para a reforma da casa e famílias inteiras. Regras de trânsito não existem, mas uma força maior parece organizar o fluxo. Atravessar a rua é um ato de fé, você olha para o outro lado da rua com determinação e mantém um ritmo constante, rezando para que os motoristas – que buzinam o tempo todo – desviem de você.

A cidade carrega uma energia intensa e constante, não só pelo trânsito caótico, mas também pela incessante vida nas ruas. Além das baladas e bares lotados de gringos, as calçadas são tomadas por todo tipo de atividade. Cada um se vira como pode e é interessante o uso do ambiente. Em todo canto há mesinhas e minúsculos banquinhos de plástico, onde os vietnamitas comem a céu aberto ou jogam baralho e o comércio se improvisa: barbeiros, sapateiros, “postos de gasolina” (combustível vendido em garrafas), padarias e quitandas dividem o espaço com pedestres e motos estacionadas. Caminhar pelas calçadas de Hanoi definitivamente é uma experiência única.

Outra coisa que chama a atenção são as casas, estreitas e altas, parecendo uma sobreposição de cômodos apertados. É que antigamente havia um imposto em Hanoi de acordo com o tamanho da fachada das construções. O povo, como sempre lutador e criativo, deu seus pulos, criando a arquitetura colorida e magra da cidade. O efeito é muito interessante.

Depois de andar pela cidade, visitamos a antiga prisão Hanoi Hilton (Hoa Lo) para captar o sentido da luta contra o sistema colonial e os americanos. Apesar da propaganda comunista (eles afirmam que os pilotos americanos capturados na guerra foram tratados como hóspedes), a história brutal da ocupação do país é cortante, escancarada nas fotos de rebeldes decapitados ou algemados pelos pés em camas de madeira dispostas em celas minúsculas. Mesmo tentando absorver o período histórico, a completa realidade do povo vietnamita daquela época ainda nos escapa.

Saindo da intensidade de Hanoi, os próximos dias em Halong Bay, considerada patrimônio da humanidade pela UNESCO, prometiam ser relaxantes. A baía é na verdade um complexo de mais de 1600 ilhas esculpidas pela erosão e água do mar. Muitas tem cavernas subaquáticas que exploramos de caiaque ou grutas com estalactites e estalagmites. Passamos três dias em uma barquinho de madeira típico com velas que lembram nadadeiras de peixe, conhecido como Junk Boat. O nome não é muito animador, mas o barco é na verdade bem bacana. Por 65 dólares por dia, você dorme no barco com todas refeições inclusas e faz passeios pela região.

 Halong Bay é realmente espetacular, com uma paisagem sem igual, mas ficamos desanimados com a quantidade de lixo – garrafas de plástico, isopor e diesel dos barcos – na água, impedindo que nadássemos uma única vez. O governo precisa implementar um sistema de coleta de lixo nas comunidades flutuantes de pescadores que vivem na região e educar as centenas de embarcações (em sua maioria turísticas) que navegam pelo local, ou esse lindo presente da natureza irá desaparecer rapidamente.

Ainda bem que incluímos Hoi An no roteiro logo após a passagem por Halong Bay, ou ficaríamos com uma má impressão da costa vietnamita.  A cidadezinha também recebeu o selo de patrimônio da humanidade da UNESCO, só que dessa vez, o lugar estava muito bem cuidado. O centro antigo de Hoi An é um exemplo excepcionalmente preservado de um porto comercial do Sudeste Asiático do século XV. Os edifícios e desenho das ruas refletem as influências indígenas e estrangeiras que se combinaram para produzir essa vila charmosa, que possui casas com portas amplas de madeira, calçadas largas, várias lojinhas de alfaiataria e muitos restaurantes deliciosos (o Morning Glory tem pratos vietnamitas de outro mundo!).

Pegando uma bicicleta, ou aproveitando a minivan gratuita dos hotéis, dá para sair do centro histórico e chegar rapidinho na praia de Cua Dai. O legal de ir pedalando é que você passa pelas plantações de arroz e restaurantes na beira do rio, um cenário bucólico super gostoso. A praia é limpa na maioria dos trechos (infelizmente a areia na frente de bares gerenciados por locais estava sempre mais suja), com água um pouco mais fria que a Tailândia, espreguiçadeiras rústicas e guarda-sóis de folhas de coqueiro.

Conseguimos aproveitar bem nossa estadia em Hoi An, saindo para jantar com a Lu e o Mauricio (um casal paulistano super gente boa que conhecemos no avião para Luang Prabang e reencontramos no Vietnã), passeando pelas lojinhas e revezando a manhã entre a praia e a piscina do hotel. Essa parada relaxante, na verdade, foi nossa sorte, pois a passagem por Danang, outra cidade litorânea a meia hora de Hoi An, não foi nada tranquila.

Tínhamos lido em algum blog de viagem que Danang não era uma cidade visada por turistas, tornando-a uma boa opção para vivenciar a rotina e cultura verdadeiramente vietnamita. Nisso, o site estava certo. Ficamos observando milhares de locais, e praticamente nenhum gringo, se divertirem na praia durante o final de tarde (eles vão direto do trabalho e caem no mar de roupa, inclusive usando calças sociais e jeans). O problema é que a cidade não tem nenhuma outra atração turística e nosso hotel estava reformando (claro que ninguém nos avisou), fazendo com que acordássemos de supetão às 6:30 da manhã ao som de britadeiras e martelos e passássemos o resto do dia em modo zumbi. Para quem ainda assim tem vontade de “sentir a vida local” de Danang, sugerimos marcar o voo de saída de Hoi An (o aeroporto mais próximo fica em Danang) para o fim da tarde e passear pela praia central da cidade no fim do dia, apenas algumas horas antes do embarque. Com certeza, é mais do que suficiente.

Três sonâmbulos deixaram Danang para trás com a esperança de poder descansar em Ho Chi Minh, apesar de sua fama de cidade barulhenta. Enquanto Hanoi é considerada o centro cultural do país, Ho Chi Minh, antiga Saigon, é seu grande polo econômico. A cidade de Saigon mudou de nome em 1976 em homenagem ao líder revolucionário, o nacionalista Ho Chi Minh, engajado na luta feroz contra a França colonialista, o Japão e, mais tarde, os EUA, pela reunificação e independência do país. Para o povo do norte do Vietnã, uma das estrelas mais brilhantes do seu panteão de heróis (muitos sulistas foram perseguidos por milícias do norte após a guerra contra os EUA, polemizando a imagem de HCM na região).

Mal desembarcamos em Ho Chi Minh e já senti a rinite atacando, já que a cidade é super poluída, assim como Hanoi. A proximidade da China não ajuda, mas a grande quantidade de motos nas ruas, o aumento do número de complexos industriais e, principalmente, o uso de combustível de baixa qualidade são ainda os maiores responsáveis pelo ar poluído e a altíssima incidência de doenças respiratórias. Ironicamente, o país produz petróleo de primeira para exportação, mas carece de refinarias, o que leva à importação de gasolina de má qualidade, altamente poluente. Não são só os estrangeiros que sofrem com a poluição, é muito comum ver mulheres cobrindo o nariz e a boca com um tipo de máscara cirúrgica enquanto dirigem para fugirem da fumaceira (e para não pegarem sol, já que o ideal de beleza asiático é ter pele mais branca).

Com cerca de oito milhões de habitantes, Ho Chi Minh é mais populosa que Hanoi, e tão poluída quanto, mas a cidade parece melhor organizada e mais cosmopolita. As ruas são mais largas e a arquitetura mais moderna, apesar de ainda vermos o famoso “empilhadinho vietnamita” em alguns distritos mais antigos. Como só teríamos um dia inteiro na cidade, optamos por fazer um tour onde conseguíssemos sentir um pouco da cultura do sul. O Back of the Bike Tours vinha bem recomendado por milhares de internautas, e nós entendemos bem o porquê. Na carona de uma motocicleta, você percorre Ho Chi Minh com um chef americano e sua esposa vietnamita. Os dois te levam em todos aqueles lugares que só os “locais” frequentam, passando por várias tendinhas de comida de rua e pontos interessantes da cidade. De quebra ainda fizemos milhões de perguntas sobre a cultura, desbravamos o trânsito como os nativos e pudemos comprovar a hospitalidade dos sulistas, sempre mais curiosos em relação aos estrangeiros. Foi como viajar com o Anthony Bourdain.

O Chad, o chef americano praticamente naturalizado vietnamita, nos contou que de Ho Chi Minh até Hoi An ele é muito bem tratado, mas que na capital a situação muda e às vezes é melhor se passar por canadense. Apesar do histórico conturbado, o fato é que hoje os EUA são referência para muitos jovens vietnamitas, especialmente em relação à música (os anos 80 reinam por aqui) e filmes, ao jeito de vestir, e à vontade de ganhar dinheiro. O Vietnã aderiu à Organização Mundial do Comércio (OMC) e já assinou acordos de livre-comércio com Japão e EUA. Parece muito contraditório, ao menos aponta para um caminho diverso da heroica luta do passado. Para onde caminha o país? Que será amanhã? É difícil dizer.

De tudo o que vi, levo comigo a cultura vibrante, a impressão inicial de um povo resiliente, safo, sem afetação. Das mulheres fortes, batalhadoras, como formiguinhas sempre em movimento na labuta diária, muitas carregando cestos pesados, cheios de produtos para comercializar, pendurados num bastão de madeira que apoiam nos ombros. E do povo do sul, de sorriso fácil, que sempre acenava para os três brasileiros que passeavam casualmente por suas ruas e que deixaram o país desejando poder ficar por mais alguns dias.

 

Fotos Hanoi e Halong Bay: http://mudnews.multiply.com/photos/album/253/253

Fotos Hoi An e Danang: http://mudnews.multiply.com/photos/album/254

Fotos Ho Chi Minh: http://mudnews.multiply.com/photos/album/255/255


Serei sincera. Eu e Guico não sabíamos muito sobre o Laos, muito menos sobre Luang Prabang, a terra descrita como “paraíso” pelo explorador francês Henri Munhout, que passou pela região em 1861 em uma expedição para abrir uma nova rota para a China. Esperávamos, talvez, uma Chiang Mai piorada. Algo como uma vila de camponeses sem recursos e com muito mosquito. A única parte que acertamos foi da necessidade de repelente.

No alto das montanhas enevoadas do norte do Laos, Luang Prabang corre ao lado do Rio Mekong e já foi a capital de um reino, antes da tomada do poder pelos comunistas em 1975. O local é conhecido por seus 33 templos budistas feitos de madeira, com entalhes dourados e mosaicos brilhantes, razão pela qual a cidade inteira foi tombada pela UNESCO e nós resolvemos incluí-la no itinerário.

Além de colocar a cidade no mapa dos turistas, a alta concentração de templos também influencia no dia a dia da população. Toda manhã, começando por volta das seis horas, centenas de monges caminham serenamente pela rua principal da cidade para recolher pequenas doações de alimento. Os mais velhos lideram a fila, passando pelos moradores ajoelhados que depositam comida, incenso e até dinheiro na bolsa de doações de cada monge. O Tak Bat, como é conhecido o ritual, é uma procissão silenciosa, nem os monges nem os almgivers (os doadores) oferecem qualquer palavra, já que a caminhada é feita em meditação. O problema é que alguns turistas enxergam a cerimônia religiosa como um show, batendo fotos com flash a dois centímetros dos rostos dos monges, vestindo roupas inapropriadas e fazendo algazarra. Se os hotéis da região ou o governo não criarem um folheto educativo logo, o ritual de centenas de anos corre o risco de desaparecer, já que a quantidade de participantes locais está diminuindo (eles se recusam a fazer parte de um “reality show” para gringos). Com certeza seria uma pena.

A boa surpresa é que a cidade é uma gracinha, legado do colonialismo francês na região (1893-1945). As casas tem aquelas portas amplas de madeira, as calçadas são de tijolinhos vermelhos e as placas das lojas são padronizadas, todas entalhadas em madeira, dando um ar organizado e rústico ao local. Há também vários restaurantes deliciosos decorados com artesanato típico e lâmpadas feitas de papel ou de bambu. Fizemos um verdadeiro tour gastronômico da região! Para quem passar por aqui, recomendamos o laap (carne triturada, geralmente de búfalo ou porco, misturada com ervas e especiarias) servido com arroz branco e comido com as mãos, e a Saikok, uma linguiça feita exclusivamente com carne de porco e ervas.

No geral, os laosianos são mais tradicionais que os tailandeses, talvez devido a um menor fluxo de turistas no país. As mulheres cobrem os braços e as pernas até o joelho, independente do calor que esteja fazendo. Mesmo assim, achamos todos super simpáticos, demonstrando uma ingenuidade e curiosidade maior com os visitantes do que na Tailândia.

Nós chegamos um pouco antes do ano novo, que é comemorado de um jeito curioso. Os moradores limpam suas casas e artefatos pessoais para começar bem o novo ano, que muda oficialmente de data no dia 14 de abril. Dias antes da festa, e mais tradicionalmente no dia 12 de abril, o último dia do calendário (o dia 13 não pertence nem ao ano antigo, nem ao novo, sendo considerado um dia de transição), todos vão para as ruas e jogam água uns nos outros, tipo brincadeira de criança. Estrangeiro ou não, não tem como escapar. Eu e Guico fomos ensopados bem antes de um passeio para uma cachoeira, o que foi até bom, considerando o calor escaldante que estava fazendo.

A Kuang Si Falls, a cachoeira do passeio em questão, fica a alguns minutos de Luang Prabang e é idílica. A água nem é tão gelada e dá para fazer um piquenique por lá, se você não tiver agendado aqueles tours com hora para voltar. O outro passeio mais famoso da cidade – uma volta de barco pelo rio Mekong até a Caverna dos Mil Budas, onde há milhares de imagens de Buda doados por moradores locais em datas comemorativas – também é interessante, porém mais pela paisagem e vida às margens do rio do que pelo sítio religioso em si.

Outro fato interessante sobre o país é que ele foi um dos mais bombardeados do mundo, quando os EUA não se importavam em atingir os países vizinhos durante a guerra do Vietnã. Até hoje uma liga de voluntários internacionais tenta retirar minas do território laosiano e vários moradores utilizam destroços do conflito na construção ou decoração de suas casas (cápsulas de mísseis e bombas viraram vasos de plantas populares).

Nossa estadia em Luang Prabang foi curta e relaxante. Ficamos perambulando pelas lojinhas, pela feirinha hippie noturna (a melhor da Ásia até agora, cheia de trabalhos diferentes), ou pulando de restaurante em restaurante praticamente o dia inteiro. É uma pena que não tivemos tempo para visitar Vientiane, a capital do Laos, para conseguirmos formar uma opinião melhor sobre o país. A julgar somente por Luang Prabang, ninguém de passagem pelo sudeste asiático deveria perder a oportunidade de conhecer essa pequena joia mística perdida no meio da floresta.

 

__________________________________________________________________________

Fotos: http://mudnews.multiply.com/photos/album/252

Texto interessante em um cardápio em Luang Prabang:

"Cultivating a non-discriminating mind provides the serenity for practitioners to let go of affliction (anger, greed and ignorance are the basis for all afflictions), wandering thoughts and attachments. It is difficult for us to let go due to the injustices we feel we have suffered and the grudges we thus hold. However, feeling this way only puts us more at a disadvantage because then we suffer the consequences of our grudges. Inequalities exist in this world because of our discriminating mind." - Venerable Master Chin Kung.


Escrever sobre a Tailândia é difícil. Não que a gente não tenha coisa para contar, depois de 20 dias de paraíso, histórias legais não faltam... Mas é preciso um esforço desumano para levantar da espreguiçadeira na praia e vir escrever, mesmo quando o relógio aponta 20 horas.

Ainda bem que começamos a viagem por Bangkok, ou seria quase impossível sair do bem bom para visitar a capital caótica. Em quase 3 dias, deu para ver os pontos turísticos que achamos mais interessantes e ainda ficar de bobeira pelas ruas da cidade, sempre cheias de vida. Andar pelo bairro ao redor do hostel (não ficamos em uma área tipicamente turística) era um espetáculo de cores, cheiros e sabores. As ruas por ali são salpicadas de tendinhas com artigos de moda, bastões de incenso, milhares de petiscos fritos, sobremesas e até um tatuador!

Mas, voltemos aos pontos turísticos. Como em todo sudeste asiático, há milhares de templos e Budas em diversas posições (sentado, sorrindo, em pé) a serem visitados. No entanto, nenhum viajante deve considerar passar pelo país sem conhecer o Templo do Buda de Esmeralda que fica dentro do também estonteante Grande Palácio. Os dois lugares ganharam destaque na minha lista de “monumentos embasbacantes ao redor do mundo". Nenhuma igreja europeia, ou qualquer outro sítio religioso ou histórico que visitei, chega perto dos mosaicos detalhados, estátuas de seres exóticos (me sentia um figurante do filme O Labirinto do Fauno) ou das cores vivas dos painéis nas paredes. É realmente belíssimo, talvez por ser muito diferente do padrão ocidental. Há, é claro, outros templos interessantes em Bangkok, com destaque para o Wat Arun na beira do rio, mas nada comparável ao Buda de Esmeralda/Grande Palácio.

Seguindo uma das dicas valiosas de uma amiga, passamos o resto da tarde (a maioria dos pontos turísticos oficiais fecha antes das 16h) andando por Chatuchak, o maior mercado popular da Tailândia. Você encontra de tudo por lá, comidas típicas, bugigangas chinesas, roupas de marca falsificadas e muitas lojas de móveis e objetos de decoração lindíssimos. Tínhamos vontade de fechar um container e redecorar toda nossa casa. Dessa vez, o orçamento não deixou, mas ainda volto ao país e levo um navio com móveis asiáticos para Curitiba.

Falando em feirinhas, a 100 km de Bangkok fica o Damnoen, o famoso mercado flutuante, uma espécie de shopping em cima da água. É bacana para conhecer como o comércio girava antes do século 20, quando a cidade era cortada por milhares de canais lembrando uma Veneza asiática. No entanto, o lugar já está bem turistificado. Em vez de objetos artesanais, vimos a maioria das lojas vendendo as mesmas parafernálias chinesas. Bom, valeu o passeio, senão pelas lojinhas, pelo menos pela massagem no pé enquanto esperávamos pelo motorista da van.

Há alguns outros lugares para visitar, como a rua Kao San, um reduto de mochileiros que se tornou um destino gastronômico para jovens tailandeses (not our thing), o Teatro Nacional famoso pelos shows de dança tradicional e alguns outros templos. Mesmo assim dá para fazer tudo em no máximo 4 dias, já que é bem fácil andar pela cidade com os temerários tuk tuks. Esses triciclos transformados em táxis levam turistas para todo canto por cerca de 10 bahts por corrida (0,20 centavos de dólar), desde que você não se importe em parar ao longo do caminho em alguma loja “conveniada.” É que alguns tuk tuks são comissionados, ganhando um dinheirinho a mais para cada selo coletado nessas visitas. Um jeito interessante de estimular o comércio para os lojistas e uma maneira barata de conhecer a cidade para os turistas, caso você disponha de tempo e paciência para passar 10 minutos em uma loja de ternos e finalmente dizer “eu vou pensar, qualquer coisa volto mais tarde.” Se não, é bom preparar a carteira, porque a corrida do táxi normal para o mesmo trajeto sobe para 200 bahts.

Depois de alguns dias na capital, estávamos animados para passar os próximos 10 dias na praia. O litoral tailandês é muito famoso, com praias intocadas do lado leste onde fica Koh Samui, e outras de renome mundial do lado oeste, como Phuket e Koh Phi Phi (onde foi filmado A Praia). Como não conseguíamos decidir aonde ir, resolvemos conhecer os dois destinos. No quesito belezas naturais, Koh Samui é peso pesado enquanto Phuket é café com leite. Não que não haja lugares bonitos do lado oeste, mas geralmente não são aqueles inclusos no circuito turístico. Phuket é uma verdadeira gringolândia, focando naquelas baladas clichês de beira de praia. A praia principal, Patong, não tem nada demais e é bem mais suja que a praia central de Koh Samui (Chaweng Beach). Chaweng ainda tem restaurantes legais e vários turistas (principalmente russos), mas nada como a horda de gringos velhos caçando tailandesas novinhas de Phuket. A praia em Chaweng também é deliciosa, de areia branca e água cristalina e morna, com massagistas de prontidão em quiosques na areia (uma das melhores coisas da vida) e você ainda consegue uma espreguiçadeira sem ninguém por perto sem ter que andar quilômetros. 

Há pouco mais de uma hora de barco de Koh Samui também fica a espetacular reserva marinha de Angthong e outras ilhas praticamente intocadas, como Koh Tao e Koh Phangan. Eu e Guico nos apaixonamos por Angthong, com as pedras que parecem flutuar na água do mar, cavernas aquáticas e um grande ecossistema marinho. Fazer snorkel por lá era incrivelmente fácil, você praticamente não precisava nadar para ver os peixes.  É também em uma dessas ilhas (Koh Phangan) que ocorre a Full Moon Party, uma das raves mundialmente mais famosas, que nós ficamos felizes em passar para poder aproveitar o dia nas praias.

Mesmo com todos os atributos de Koh Samui, foi Phuket que entrou para a memória como o lugar mais inesquecível da viagem. Eu e Guico havíamos escolhido um resort numa praia menos conhecida para poder relaxar, o Friendship Beach Hotel. O lugar é bem bacana, piscina, restaurante na areia da praia, quartos enormes, tudo dentro do nosso orçamentinho (adoro os preços da Ásia!). Infelizmente eu havia pego uma gastroenterite viral uns dias antes e não estava passando tão bem para aproveitar o resort da maneira certa. No último dia, no entanto, tudo ficou perfeito. Acordei melhor e ficamos na piscina até quase o último raio de sol. Na hora do jantar, o Guico pega minha mão, passando pela última mesa do restaurante através da passagem que dava para a praia. Lá, uma mesa especial nos esperava na areia, com um garçon exclusivo. O Guico me deu uma rosa vermelha – lembrando a rosa que ganhei na primeira noite que saímos – se ajoelhou, e pediu minha mão com um lindo anel solitário. As pessoas no restaurante batiam palmas e tiravam fotos, enquanto eu enxugava as lágrimas e me preparava para o delicioso jantar à beira mar com champagne, peixe, frutos do mar e camarão. Realmente, Koh Samui que me perdoe, mas será impossível esquecer Phuket.

No dia seguinte, arrumamos a mala em direção à Chiang Mai, nosso último destino no país. A cidade interiorana foi uma mudança de ritmo legal na viagem. Apesar de ainda ser bem turística, você fica mais próximo do dia a dia dos tailandeses, absorvendo melhor a cultura local. Fora que dá para fazer um monte de passeios bacanas, como visitar a tríplice fronteira entre Laos, Myanmar e a Tailândia, brincar com filhotes de tigres ou passar um dia cuidando de elefantes resgatados. Também é um ótimo lugar para aproveitar as coisas típicas do país, já que Chiang Mai tende a ser mais barata que a capital e as praias. As opções são infinitas: jantar em um delicioso restaurante à beira do rio (ou mesmo em um barco tradicional), assistir a uma luta de Muay Thai, comprar lembrancinhas no mercado de final de semana ou no night bazar, fazer uma aula de culinária tailandesa ou de massagem, visitar templos etc. Nós fizemos praticamente a lista toda sem sair do orçamento!

Essa terra de sonhos deixará saudades. Tinha expectativas altas sobre a Tailândia, e todas foram cumpridas com esmero. Um país cheio de cultura, comidas exóticas e costumes milenares. Uma terra que coloca importância na educação e respeito, onde levantar a voz é tabu e todos se cumprimentam juntando as palmas da mão no centro do peito e inclinando levemente a cabeça à frente. Um país quente, no clima e calor humano, que selou um momento muito especial na minha vida e que será lembrado para sempre com carinho.

 

Fotos Bangkok: http://mudnews.multiply.com/photos/album/248/248

Fotos Koh Samui: http://mudnews.multiply.com/photos/album/249/249

Fotos Phuket: http://mudnews.multiply.com/photos/album/250/250

Fotos Chiang Mai: http://mudnews.multiply.com/photos/album/251/251


Blog EntryMar 17, '12 10:19 PM
for everyone

A primeira coisa que passou pela minha cabeça quando desembarcamos em Guilin foi, “agora sim estamos na China!” Apesar de Hong Kong ser considerada território chinês, a moderna e vibrante cidade-estado tem leis e costumes próprios estampando um ar ocidental orgulhoso em suas inúmeras lojas fashion e arranha-céus de vidro. Enquanto em Hong Kong até a mais humilde faxineira fala um pouco de inglês, em Guilin nem os recepcionistas dos hotéis conseguem se comunicar bem.

A mudança de tom entre um país e outro ficou clara já no desembarque. Como as leis de imigração das duas cidades são distintas, tivemos que passar por alguns militares mal encarados para entrarmos no país. A maior preocupação era o meu visto, que tinha data limite de entrada na China para o dia seguinte (a entrada em Hong Kong não conta como território chinês). Tínhamos sido avisados desses pormenores legais por um conhecido nosso que, saindo de Hong Kong para outra cidade chinesa, acabou preso por conta do visto. Pela cara dos milicos de Guilin, não deve ter sido um jeito legal de conhecer o país.

Depois de gesticularmos um pouco no aeroporto (as horas jogando Imagem & Ação nos prepararam bem para esse momento), pegamos um ônibus e um táxi e chegamos ao nosso albergue, um oásis internacional no meio da cidade com vista para o rio por apenas U$ 7,00 (adoro os preços da Ásia!). Nossa primeira aventura foi tentar achar um lugar para almoçar. O restaurante embaixo do hostel fazia uma boa propaganda de sua comida fresca, com uma dezena de bacias na calçada, cheias de moluscos e peixes vivos. Sem um cardápio em inglês (muito comum em cidades menores), apontamos para a única foto de comida na parede e começamos a rezar. Demos sorte. O peixe apimentado servido inteiro na wok estava uma delícia!

A beleza de Guilin foi a segunda boa surpresa do dia. Arborizada e organizada, a cidade é cortada ao meio pelo rio Li, onde os moradores fazem sua travessia em jangadas de bambu. Apesar to tempo cinzento típico do final de inverno, conseguimos driblar a chuva e passear pelo Parque do Elefante, o cartão postal da cidade. Infelizmente nosso acordo com São Pedro acabou um pouco antes do tour pelos terraços de arroz de Long Ji. A neblina amanheceu pesada, cobrindo boa parte da vista cênica famosa do interior do país.

Fiquei chateada. As costelas de arroz cravadas nas montanhas eram uma das principais razões para visitar Guillin. Minha frustração teria sido ainda maior não fosse pela passagem pela vila Huangluo Yao, no meio do caminho para os terraços. Conhecida pelas mulheres da etnia Red Yao, que nunca cortam o cabelo, a vilazinha ficará para sempre na nossa memória como o lugar do casamento do Guico. Isso mesmo. Meu namorado se casou com uma chinesa! Na verdade eles realizam um show demonstrando os costumes e músicas locais e o Guico teve a sorte de ser escolhido para participar. O evento culmina em uma cerimônia matrimonial típica, onde o noivo é beliscado na bunda pelas mulheres e depois carrega sua noiva pelo palco. Eu achei que teria uma ataque epilético de tanto rir!

Realizado o divórcio (alguns trocados para comprar uma bolsinha artesanal foram o bastante), terminamos o dia em uma casa tradicional de chá, aprendendo sobre os diferentes processos de fabricação, e sobre o ritual milenar da bebida, carregado de simbolismos e regras (mulheres devem levantar o dedo mindinho enquanto bebem e há diferentes modos para solteiros e casados baterem na mesa para demonstrarem satisfação com a anfitriã). O preparo das diferentes ervas é um processo minucioso, apreciado com zelo, como em uma degustação de vinhos refinados. Foi um jeito relaxante de encerrar o dia.

Infelizmente o refinamento dos chineses à mesa começa e termina no ritual do chá. Mesmo a metros de distância, é possível escutar cada chupada de noodles (todos comem de boca aberta e fazendo muito barulho). É impossível não notar. Se por acaso você perder a sinfonia, o arroto no final da refeição será o bastante para chamar sua atenção. Se perder até esse episódio (vai que estava no banheiro bem na hora), não se preocupe, a escarrada na calçada enquanto todos saem do restaurante ficará para sempre na memória. Moral da história: nada melhor para encorajar uma dieta que almoçar com chineses.

Apesar dos hábitos nojentos, a culinária chinesa é extremamente rica, com nuances interessantes em cada região. Em XI’AN, a segunda parada no país, provamos um banquete chinês digno de imperador, com duas sopas de entrada, chás variados e sete pratos principais. Com certeza um exagero, porém para os chineses a sobra de comida à mesa é um sinal de fartura e de hospitalidade.

XI’AN, uma das cidades mais antigas da China com 3.100 anos de história, é conhecida principalmente por abrigar o sítio arqueológico dos guerreiros de Terra-cota. Nossa passagem por lá foi um pouco rápida, mas o suficiente para visitar a muralha velha da cidade, a Pagoda do Pequeno Ganso e as torres do tambor e do sino. Os guerreiros são um show à parte. Mais de 8 mil estátuas datadas de 300 a.C., todas com rostos diferentes, vigiam a tumba de  Qin Shi Huang, o primeiro imperador chinês. Os guerreiros, generais, arqueiros e cavaleiros encontrados tem tamanhos diferentes que variam de acordo com as patentes, os mais altos (e gordos, já que a famosa barriguinha de chopp era o padrão de  beleza da época) sendo os generais. Cavalos, charretes, músicos e oficiais do mesmo material também foram desenterrados. O tesouro arqueológico foi encontrado por fazendeiros que escavavam um poço em 1974. A primeira estátua descoberta foi de um arqueiro, a única que sobreviveu intacta aos anos de erosão e terremotos. Misteriosamente, a peça também conservou a tinta original, enquanto todas outras desbotaram, ganhando o merecido apelido de Arqueiro Mágico.

Sair da tradicional XI’AN para a elétrica Xangai foi uma mudança interessante. Cravada com milhares de arranha-céus, a cidade mais populosa da China é um grande centro industrial e financeiro, recheada de restaurantes famosos, baladas e lojas. Para nós, no entanto, ir para Xangai foi como voltar para casa. É que a Patrícia, prima do Guico, mora por lá. Não só conseguimos ir a uma churrascaria, a um rodízio de pizza e bater papo de manhã com um bom café, como recebemos as melhores dicas sobre a cidade. Ficamos impressionadíssimos com a quantidade de opções em Xangai. Se você tirar os letreiros em chinês e olhar a arquitetura moderna e a quantidade de cafeterias e restaurantes gourmets, pode achar que está em Nova York.

Para quem gosta de comprar em viagens, então, Xangai é o paraíso. A cidade tem milhares de shoppings e lojas, mas o grande achado (outra dica da Patrícia, é claro) foi a Pearl City, um centro comercial com várias opções legais de artigos de seda e pérolas verdadeiras, tudo com qualidade comprovada e suuuuuuper barato! Difícil foi não sair de lá com todos os colares, anéis e pulseiras disponíveis!

Contrastando com os prédios novos, as largas avenidas e os letreiros luminosos, Xangai ainda conserva alternativas para quem quer experimentar a cultura antiga do país. Qibao, a 18 km do centro da cidade, é uma vila histórica, com tendas de comidas exóticas, artesanato e quinquilharias empilhadas dos dois lados das ruazinhas estreitas. Mesmo se você não tiver coragem de provar nenhuma iguaria (o ovo preto com pintinho dentro foi demais para mim), passear pelo bairro e suas construções tradicionais chinesas já é um grande evento.

No que se refere à China tradicional, achamos Pequim mais fiel às imagens do país que carregamos no nosso imaginário ocidental. É só caminhar pelo centro da cidade e você esbarra em cantinas vendendo pato assado e outras delícias locais, edificações com o famoso telhado oriental com as pontas levantadas e milhares, milhares de chineses. Surpreendentemente, andar pela cidade é super fácil. Como em Hong Kong e Xangai, a malha de metro é bem ampla. Dentro dos trens, há um mapa que acende conforme a direção do trem para indicar a próxima estação e como os nomes estão em inglês e chinês e há uma gravação em inglês confirmando o nome da parada que se aproxima, não tem como se perder.

A Praça Tiananmen (Praça da Paz Celestial) é um bom lugar para começar a explorar a cidade. De um lado se vê o Palácio do Povo, do outro a Cidade Proibida onde morava a família imperial, e no meio a praça rica em história e protesto. Apesar de o governo chinês esconder como pode o massacre da Praça Celestial em 1989, o local ainda é foco de rebelião, mesmo que reprimida. Eu e Guico passeávamos tranquilos por Tiananmen, quando uma chinesa tirou a blusa, mostrando o corpo pintado com caracteres chineses, e começou a gritar. Em poucos segundos, vários policiais (o local parece mais bem guardado do que o caixa forte do Tio Patinhas) empurraram a moça para dentro de um camburão. Achamos que podia ser algo em relação ao Tibet, pois os telões da praça mostravam imagens da região e estávamos a um dia do aniversário dos protestos pela independência que terminaram em violência no dia 14 de março de 2008. Porém, como falamos só três palavras em mandarim, a mulher bem que podia estar gritando de dor de barriga. Nunca se sabe.

Visitar a China e não conhecer a Grande Muralha construída ao longo de dois milênios para afastar os bárbaros do norte seria um sacrilégio. Considerada uma das novas sete maravilhas do mundo, a muralha tem 8.850 quilômetros não contínuos, já que a construção é feita de muros separados. Pequim é um ótimo lugar para conhecer a parte da muralha erguida durante a dinastia Ming (1.368 d.C. a 1.644 d.C.), mas para realmente aproveitar o passeio você tem que saber qual trecho visitar. A maioria dos turistas vai para Badaling, onde você pode tirar lindas fotos da multidão se acotovelando na muralha. Se esse cenário te dá tanto arrepios quanto a mim, vá para Jinshanling (dizem que Simtai também é muito bonito, mas estava fechado para reforma). Andar pela muralha e poder explorar as torres sem ninguém por perto é impagável (na verdade é sim, custou U$ 45 entre transporte e alimentação).

Além das atrações turísticas mais famosas, Pequim é cheia de opções B interessantes, como o passeio pela rua Wangfujing, onde há um mercado noturno de petiscos gostosos e estranhos. Tem de tudo! De espetinho de camarão, a escorpião frito. Eu provei um grilo crocante que tem gosto de batata frita, o que só prova minha teoria que é só botar sal que toda fritura fica com o mesmo gosto.

Apesar da parte moderna da cidade ser menor do que em Xangai, ainda dá para passear pelas lojas conceito de marcas famosas, ou jantar no Beijing Soho, o bairro chique da cidade (não é por nada, mas o nome Soho já tá meio batido, né?). A Paulinha, minha amiga de Curitola que se mudou há um mês para a China, me levou em um ótimo restaurante oriental com direito a mojitos em um bar próximo para botar o papo em dia. Nos divertimos horrores, mas os bares da cidade são meio estranhos, com música lenta, ou pole dancing (e não era bordel), ou gente esquisita. É que a maioria dos chineses acha esse negócio de vida noturna meio perigoso, coisa de gente desocupada mesmo. Não que eles estejam totalmente errados, a julgar pela galera nas ruas à noite.

Depois de 20 dias pelo país, estava na hora de seguir viagem para Tailândia. Nossa passagem pelo território chingling foi quase um episódio do Discovery Channel. Provamos comidas estranhas, nos espantamos com alguns hábitos dos chineses, conhecemos pessoas legais e vimos monumentos incríveis. A China com certeza imprimiu sua marca em nossa memória. Afinal, sentir-se desafiado do outro lado do mundo é uma das razões principais para levantar do sofá e entrar em um avião. (Mesmo quando o desafio seja não fazer careta quando alguém escarra a centímetros do seu pé. Yuck!)

Fotos Guilin: http://mudnews.multiply.com/photos/album/244/244

Fotos XIAN: http://mudnews.multiply.com/photos/album/245/245

Fotos Xangai: http://mudnews.multiply.com/photos/album/246/246

Fotos Pequim: http://mudnews.multiply.com/photos/album/247/247

 


Blog EntryFeb 27, '12 10:05 AM
for everyone

Conhecida por sua economia capitalista liberal e por seus arranha-céus de vidro, Hong Kong é uma cidade-estado cheia de vida. Com sete milhões de habitantes exprimidos em apenas 1.054 km², a população não tem outra opção senão sair de casa e esbarrar na multidão do lado de fora. E que multidão! De segunda a segunda, as ruas estão lotadas de pessoas que vem e vão das lojas 24 horas, que saem do metrô para trabalhar ou que param para comer em um dos milhares de restaurantes com letreiros coloridos.

Eu e Guico ficamos na ilha principal, bem no centro da cidade, considerado um dos grandes pólos financeiros do mundo asiático. Logo no primeiro dia, enfrentamos o formigueiro humano para almoçarmos junto aos locais. Por sorte, acabamos em um restaurante de bairro famoso pelo preparo de um saboroso prato chinês: a sopa de cobra. A iguaria, que é bem gostosa, foi uma indicação de um morador que estava sentado em nossa mesa. Aparentemente, o prato só é servido no inverno, devido a suas propriedades térmicas. Os chineses acreditam que a carne de cobra aquece o corpo, mas nós achamos que o mérito era da sopa mesmo. 

Apesar de lotada, a ilha é bem fácil de navegar, seja com transporte público (com wifi e indicação das paradas em inglês) ou a pé. Andamos a ilha principal de ponta a ponta no primeiro dia, passando pelo templo de Man Mo, caminhando através do longo cais e terminando com um passeio de balsa até a parte continental da cidade. Kowloon, como é chamado o bairro continental, tem construções mais antigas que o centro comercial, abrigando o Kowloon Walled City Park, um parque com construções e templos da época em que a cidade era citiada por muros altos.

Além das edificações em estilo chinês clássico da Kowloon Walled City, o bairro também é famoso por abrigar vários mercados de rua e a Avenida das Estrelas, uma calçada da fama de artistas chineses que nós achamos bem mixuruca. O melhor show de Hong Kong, na verdade, não fica nem em Kowloon, nem na ilha principal, mas sim no meio. Todos os dias às 20 horas, os dois lados do canal fazem um show de luzes, com a participação de vários arranha-céus. O melhor camarote para esse breve evento é a bordo de uma das balsas que cruzam o canal. Nós conseguimos embarcar minutos antes das luzes brilharam no céu nublado de Hong Kong. Cada pessoa prefere a vista de um dos lados da cidade. Para nós, as luzes do lado continental foram mais elaboradas, embora nenhum dos dois seja realmente imponente.

Mas Hong Kong não é só feita de luzes e prédios. Uma das atrações mais bacanas fica a alguns quilômetros do centro, no Monastério de Po Lin. Feita inteiramente de bronze, a maior estátua de um Buda sentado do mundo se destaca na paisagem montanhosa. A vista lá de cima é espetacular, e ainda dá para visitar os templos budistas da região (os mais bonitos que vimos) e experimentar a culinária local (eu e Guico provamos um prensado de lula que foi no mínimo exótico).

No nosso último dia, decidimos deixar o barulho da cidade de lado e passear por Macau. Como em Hong Kong, a ex-colônia portuguesa possui sistema legal, moeda, alfândega, direitos de negociação de tratados e leis de imigração próprias, sendo dependente da China somente no que se refere à política externa e defesa territorial.

Lotada de cassinos, a cidade-estado é minúscula, mas muito interessante para quem veio do Brasil. Vários prédios e monumentos antigos seguem a arquitetura portuguesa colonial, conservando inclusive os nomes em português. Apesar de não termos encontrado ninguém que falasse nossa língua por lá, pudemos saborear um pastel de Belém na Rua São Paulo, uma viela cheia de lojas de biscoitos e carne seca (uma febre culinária em Macau) e pastelarias.

Caminhar entre a arquitetura e nomes de ruas conhecidas no meio de um território praticamente chinês só prova o quão diversificado é esse mundão. O sentimento de familiaridade em Macau é real, mas efêmero, já que vem embrulhado com a cultura milenar cantonesa, tão alienígena aos nossos costumes. No fim, a mistureba cultural rende boas histórias, ou pelo menos só aventuras culinárias interessantes, como o prato de noodles feito à mão acompanhado de tendão de boi cozido que comemos no almoço. Yuuuuuuum! 

Entre a sopa de cobra de Hong Kong e o tendão de boi de Macau, podemos dizer que passamos na prova preparatória para sobreviver às refeições na China. Estamos prontos para seguir viagem! Que venham os pratos de Guilin!

Fotos: http://mudnews.multiply.com/photos/album/243#



Blog EntryFeb 24, '12 9:31 AM
for everyone

Nós tínhamos acabado de receber a guirlanda de boas-vindas na estação e seguíamos o capitão, que tinha um bigode longo e vestia uma espécie de turbante, até nossa cabine. Decorada com cadeiras talhadas, lençóis típicos e com mais conforto do que a maioria dos hotéis que passamos, o quarto fazia jus ao nome do trem. Deixamos nossa bagagem e fomos explorar os outros vagões. Com dois restaurantes, SPA, academia e um atendente individual, a viagem de trem pela Índia não seguiria o padrão das histórias que ouvimos da maioria dos viajantes. E isso era ótimo. Para falar a verdade, o país não estava na lista dos favoritos do roteiro de volta ao mundo. Longe disso. Depois de escutar vários relatos sobre a falta de higiene, sujeira e extrema pobreza da região, eu não tinha ficado extasiada em passar por lá.

Foi só quando eu li sobre o Palace on Wheels, um trem luxuoso que percorre o Rajastão, a terra majestosa dos marajás e seus palácios, que eu comecei a me animar. Para dar um sabor ainda mais especial à viagem, presenteei o Guico, que dividia meus receios sobre o país, com o ticket para o trem no seu aniversário de 30 anos. Comemorar a virada de década do namorado em um dos dez trens mais luxuosos do mundo foi a motivação ideal para começar a ver a Índia com outros olhos.

O itinerário do trem era empolgante por si só: sete dias apreciando a paisagem interiorana, saindo em safáris, almoçando em hotéis cinco estrelas e visitando o reino antigo dos rajás e marajás, onde fortalezas históricas adornam colinas íngremes e lindos jardins cercam palácios preservados há mais de dez séculos. Ao todo, conhecemos seis cidades (Sawai Madhopur, Udaipur, Jaipur, Agra, Khajuraho e Varanasi) e ainda ganhamos um tour complementar por New Dehli.

É difícil escolher as melhores memórias da viagem. Seria o passeio de elefante pelas portas do Palácio Amber? A vista dos palácios no meio dos lagos de Udaipur, tão impressionantes como os contos de Game of Thrones? O passeio por Fatehpur Sikri, a cidade construída exclusivamente com arenito vermelho em 1585? A comida perfumada com curry e saboreada com o delicioso pão naan fresquinho? Os templos hindus decorados com cenas do Kama Sutra? Ou a visita ao grandioso Taj Mahal, que muda de cor conforme a luz do dia em um show exclusivo aos que vieram conhecer uma das sete maravilhas do mundo moderno?

Apesar de não conseguir eleger o melhor lugar da viagem, a parte mais impressionante do país se destaca facilmente. Os problemas da Índia são tão gritantes, que nem uma viagem de luxo em um cometa conseguiria escondê-los. A pobreza é enraizada e anda de mãos dadas com a sujeira. Mesmo nos bairros mais nobres, há montanhas de lixo para tudo quanto é lado, crianças peladas e descalças pelas ruas, pessoas doentes pedindo dinheiro e o pior trânsito que já vi (muitos motoristas retiram o retrovisor do carro/moto, utilizando somente a buzina para indicar sua posição aos outros carros). É impossível ficar insensível.

Para mim, todo o caos do país pode ser resumido em uma viagem de barco pelo Ganges. Para os hindus, que correspondem a 80% dos indianos, as águas do rio são sagradas, absolvendo os pecados dos que ali se banham. O problema é que o Ganges é considerando um dos cinco rios mais poluídos do planeta, com uma concentração enorme de coliformes fecais, entre outros “detritos.” Do lado de uma lavadeira de bairro esfregando roupas e lençóis, se vê gente defecando nas margens, animais mortos dentro da água, búfalos tomando banho e cinzas crematórias (algumas vezes corpos embalsamados) sendo jogados no rio. Nós presenciamos todos os itens da lista acima, com exceção do corpo.

Ao desembarcar em uma das feirinhas da margem do rio, a gente logo sente a outra parte igualmente impressionante da Índia. No meio dessa pobreza toda, o indiano ainda é extremamente hospitaleiro e caloroso, principalmente em relação aos estrangeiros. E não, isso não tem necessariamente a ver com dinheiro. Eles vão muito além do que é esperado para agradar, te perguntam a todo o momento o que você acha do país, batem fotos (eu me senti uma atriz bollywoodiana com aglomerados de pessoas querendo tirar fotos comigo), e te presenteiam com o que tem, podendo ser uma flor catada no mato por uma menina de 6 anos, ou uma echarpe escolhida a dedo pelo funcionário da agência de viagem que nos atendeu.

É exatamente o contraste do sorriso das pessoas que acenavam para nós na rua com o olhar sofrido daqueles que pediam comida na estação de trem que eu levo embora comigo. Essa dor e beleza que na Índia são irmãos de uma mesma família, que te abraçam assim que você chega e que marcam a viagem com algo que vai muito além do que aparece nas fotos.

 

Fotos: http://mudnews.multiply.com/photos/album/242/242

 


Cinco meses na estrada... O tempo realmente voa. Já conheci tanto lugar bacana! Cada país mexe com você de um jeito diferente. Você é obrigado a sair da zona de conforto, a melhorar o jeito que se comunica, a questionar as mensagens que envia, e, no meio de tudo, acaba revendo o que realmente importa nesse mundão. É uma dança meio maluca, onde os passos nunca são conhecidos de antemão.

Apesar de já ter curtido muitos lugares diferentes, a primeira vez que me senti realmente em casa foi em Cape Town. Talvez tenha sido a praia, o tempo mais quente, as favelas cercando o centro, o mix de pessoas, ou a arquitetura mais moderna. Não sei. O fato é que a primeira coisa que me veio à cabeça depois de alguns passeios pela cidade foi: “eu moraria aqui.”

Pela concentração de brasileiros nas ruas, acredito que a epifania não seja exclusivamente minha. Cada vez que saíamos do hostel para caminhar, tínhamos a impressão de estar em Miami, lotada de brazucas. É fácil entender o porquê. Com lindas praias, preços baratos (a moeda é mais ou menos 4 vezes inferior ao real) e sem precisar de visto, a África do Sul acaba se tornando um ótimo lugar para aprender inglês (se você conseguir entender o sotaque africâner), ou fazer uma colônia de férias internacional.

Eu e Guico nos encaixamos na segunda opção. Tours gastronômicos, passeios de aventura, safáris, tudo é mais barato por aqui. Logo que chegamos, entramos em contato com o Cape to Grape para agendar a primeira atividade da colônia de férias: um tour pelas vinícolas da área. Por 60 dólares, passaríamos o dia visitando seis fazendas produtoras com um sommelier. A missão: provar seis vinhos em cada vinícola, parando somente para degustar queijos em uma fazenda e almoçar. Como se vê, um trabalho estrênuo.  

Além de bebermos bastante vinho, achamos a viagem por Paarl, Stellenbosch e Durbanville – algumas das regiões viticultoras perto de Cape Town – uma ótima oportunidade para conhecer o oeste do país, delineado por montanhas belíssimas. A parte mais marcante, no entanto, foi uma degustação de vinho harmonizada com biltongs, diferentes tipos de carnes “exóticas” curadas. Para a gente, era como comer carne seca de avestruz, cudo e de outros antílopes. Com certeza foi uma experiência interessante, mas provavelmente não uma que eu queira repetir.

Depois de provar quase 30 vinhos diferentes e ainda levar uma garrafa de brinde para a viagem, podemos dizer que ficamos um pouco alegres. Talvez por conta dessa alegria, ou de uma falta inata de bom senso, decidimos fazer um tour com um pouco mais de adrenalina no dia seguinte. Mergulhar com tubarões brancos parecia encaixar bem no requisito. Acordamos cedo e, juntamente com outros 22 malucos, pegamos uma van em direção a baía de Gansbaai, conhecida pela presença dos reis dos mares, focas e baleias.

Embora tenha uma fama aterrorizadora, o tubarão não é um bicho tão assustador. Mentira, é sim. A diferença é que costumamos a pensar neles como uma espécie de bicho-papão, como se a toda oportunidade os tubarões fossem nos atacar, mastigando barcos se preciso, como no infame filme de Steven Spielberg, Jaws. Como viemos a aprender, a realidade é bem diferente.

“Agora que vocês estão com a roupa mergulho, terão que esperar entre 30 minutos e uma hora, talvez mais, antes do primeiro tubarão aparecer. Eu sei, eles não mostram essa parte no Discovery Channel, mas os tubarões são muito desconfiados e seletivos com o que comem. Os que aparecerem hoje geralmente são jovens, naturalmente mais curiosos, que nos visitam para checar o cheiro de peixe que jogamos na água. Depois que perceberem a brincadeira, eles vão embora, então temos que ser rápidos na gaiola para que todos tenham uma chance de vê-los.” A explicação do guia acalmou o ânimo geral da galera, o que foi bom, pois ainda esperamos quase duas horas antes da aparição do primeiro bichano curioso.

De cima do barco é mais fácil ver o temível senhor dos mares se aproximando da isca sorrateiramente, com o corpo completamente submerso (nada de barbatanas para fora d’água como golfinhos). Quando descíamos para a gaiola, a história era outra. Na água congelante, a visibilidade era de apenas dois metros, permitindo avistar o tubarão somente quando ele estava literalmente na frente do nosso nariz. O guia gritava, “tubarão vindo pela direita, mergulhem!” E nós nos concentrávamos debaixo d’água para não perdermos a oportunidade. Depois de umas três jogadas de isca, o tubarão achava tudo aquilo muito tedioso e ia embora, e nós ficávamos a esperar o próximo jovem tolinho que caíria no blefe.

Tubarões brancos são muito inteligentes, e não se encantam com peixe morto para o almoço, já que a refeição não fornece energia suficiente nem para completar a digestão. Sua dieta principal consiste em tubarões menores e focas. Assim, para evitar que os predadores brancos associem humanos com alimentação, os barcos com turistas só podem usar 25 quilos de peixe morto para atraí-los.  Também não é permitido alimentar os bichanos, fazendo com que um dos marinheiros tivesse que puxar a isca do mar toda vez que o tubarão ameaçava atacá-la.

No fim, ficamos com mais medo de entrar no mar por causa da baixa temperatura da água (eu batia os dentes enquanto esperávamos pelo comando de mergulho do capitão), do que por qualquer comportamento do tubarão. O cara, na verdade, só é meio mal-entendido.

Nossa colônia de férias estava uma delícia e ainda tínhamos vários dias de atividades. Em alguns dias ficávamos mais relaxados, caminhando pela orla da praia ou por Waterfront – uma região portuária charmosinha, cheia de bares, lojas e músicos de rua – ou descobrindo a gastronomia local. Há várias opções legais para quem gosta de comer bem. Eu e Guico adoramos o Mama Africa, um restaurante mais turístico, mas que oferece música ao vivo e ótimos pratos típicos (adoramos o prato de grelhados com carne de crocodilo, avestruz, cabra-de-leque, cudo e linguiça de cervo, todos animais criados em fazendas). Durante o verão, há também um ticket promocional para jantar no topo da Table Mountain enquanto o sol se põe (o que acontece por volta das 20 horas nessa época do ano). A promoção é chamada de Sunset Dine and Ride e custa somente 26 dólares, incluindo o ingresso de ida e volta dos bondinhos, buffet variado e vinho. Se adquirido online, o ticket fica ainda mais barato e não é preciso pegar fila na base da montanha. A vista de cima do cartão postal da cidade é incrível, vale realmente a pena, mesmo sem jantar!

A poucas horas de carro de Cape Town, há também outros passeios fantásticos. A visita a Cape Point, com uma parada rápida em Boulders para ver os pinguins, parece estar na lista de todos os turistas. O melhor do tour sem dúvida é a paisagem coberta de montanhas e praias idílicas que acompanha todo percurso até o ponto onde o oceano Atlântico encontra o Índico. Na mesma lista turística, Robben Island geralmente aparece como segunda colocada. Devia ser a primeira. Ok, os passeios são totalmente diferentes, o primeiro recheado de natureza e o segundo, de natureza humana. Mas, para nós, Robben Island foi mais a fundo.

Do século XVII ao XX, a ilha a 6,9 km de Cape Town foi usada como prisão para desafetos políticos capturados por regimes diversos. Os holandeses e britânicos foram os primeiros a usarem o local para isolar os que ousavam questionar o regime colonial na África do Sul. Porém para nós, a imagem de Robben Island vem conectada a uma história mais recente e igualmente perversa: o Apartheid. Durante 46 anos, um conjunto de leis catalogava a população de acordo com a cor da pele, garantindo à minoria branca, que representa um quinto da população, um futuro seguro, enquanto todo o restante era tratado como cidadão de segunda classe. Aqueles que rebelavam contra o sistema eram ignorados, assassinados, ou enviados à Robben Island. Seu carcerário mais conhecido, Nelson Mandela, passou 30 anos na ilha.

Explorar as celas da prisão com um ex-prisioneiro foi marcante, mas o mais impressionante ainda foram as histórias de perdão, luta pela paz e senso de comunidade dos que deixaram anos de sua vida por lá. Estampados na parede das solitárias, os rostos e palavras de cada homem surpreendem. Apesar das décadas de isolamento, as mensagens postadas não são de ódio, mas sim de uma beleza simples e cortante. “Love is the answer at least for most of the questions in my heart. Why are we here? And where do we go? And how come it's so hard?” Peguei a barca de volta à cidade envolta em pensamentos e silêncio.

Depois de tantas atividades de colônia de férias, tinha chegado a hora de deixar a cidade. Com a saída de Cape Town, nos despedimos também da África como um todo. Conhecemos poucos países, é verdade, mas fomos seduzidos por cada lugar visitado. A sensação é que precisaríamos de um ano somente para o continente, sua história conturbada e suas belezas naturais. Pretendemos voltar, é claro. Até lá, asante sana, kaka.

Fotos: http://mudnews.multiply.com/photos/album/241/Cape_Town_31_de_jan_a_13_de_fev

Video Tubarão: http://mudnews.multiply.com/video/item/42


Sentada de frente para o mar cristalino da praia de Paje em Zanzibar, sinto que descobri um tesouro escondido de nós, brasileiros. Muito se ouve falar do verão em Miami, natal em Paris ou férias na Itália, mas quase nunca escutamos alguma coisa sobre a Tanzânia, ou outros países da África.

É uma pena. A Tanzânia tem muito a oferecer, escalada em montanhas, safáris de luxo ou de aventura, praias paradisíacas e muita história. Ex-colônia inglesa (a independência foi proclamada somente há 50 anos), o país também já foi morada dos alemãs entre 1880 e 1919 e dos primeiros humanos há milhares de anos. Há inclusive fósseis e pegadas dos primeiros hominídeos, encontradas e preservadas perto da Garganta de Olduvai, um lugar interessante de visitar.

Apesar do país abrigar mais de 120 tribos com dialetos distintos (incluindo o longelíneo povo massai), o Swahili é usado como língua oficial, unindo não só os nativos, como vários povos do leste da África. A gramática e ortografia são extremamente simples, tornando-a uma língua gostosa de aprender. Eu e Guico conseguimos absorver um vocabulário básico, mas ainda voltaremos ao país falando como os locais. Mais um item para a lista de resoluções de ano novo.

Terminadas as aventuras do Kilimanjaro, passamos 6 dias explorando a savana e os parques nacionais em um safári exclusivo. Com a companhia de um guia local, acompanhamos a migração de zebras e gnus, vimos famílias de elefantes passarem a centímetros de nosso carro, tiramos fotos do quase extinto rinoceronte, babamos por filhotinhos de várias espécies e experimentamos a vida selvagem de perto. Aliás, bem de perto. Como nossas acomodações ficavam no meio das reservas, escutávamos hienas do lado de fora da nossa tenda durante a noite ou víamos chacais brincando com seus filhotes enquanto terminávamos o café da manhã.

O passeio de carro durante o dia, o chamado game drive, era sempre uma incógnita. Podíamos encontrar milhares de animais – como na Cratera de Ngoro Ngoro, provavelmente o lugar usado como inspiração para o filme Rei Leão – ou passar horas sem topar com nada além da mosca tsé tsé, a praga-picante dos jipes de safári. No entanto, mesmo se o passeio não fosse tão rico, tínhamos certeza que alguma aventura nos aguardaria nas tendas à noite, quem sabe hienas roubando o lixo da cozinha, um chacal rondando o acampamento, ou talvez cervos testando seus chifres em uma briga.

Os Tented Lodges, hotéis feitos de tendas luxuosas no meio da savana ou floresta, adicionavam um sabor exótico à experiência. Os quartos são incrivelmente confortáveis e a comida preparada com zelo e ótimas especiarias locais. O lombo de porco e o carneiro são considerados as estrelas da mesa, mas comemos até arroz e feijão, um prato também conhecido na Tanzânia. Além das carnes e legumes, os tanzanios usam muitas frutas, matando um pouco da saudade dos sucos brasileiros.

Os seis dias passaram rápido, mas para quem tem menos tempo ou dinheiro, dois ou três são suficientes. O importante é checar quais parques recebem a maior quantidade de animais de acordo com a época do ano. O Serengeti, uma das reservas mais famosas da Tanzânia, estava praticamente vazio devido ao período de seca de janeiro. Porém, metros além de seus portões, milhares de zebras e gnus (e seus fãs predadores) desfrutavam da grama curta e nutritiva do Ngoro Ngoro. Já que a maioria dos sites especializados oferece essa informação de antemão, é melhor pesquisar antes de fechar o itinerário junto à operadora do safári.

Depois de seis dias de montanha e mais seis de mato, sentimos que estava na hora de umas férias relaxantes. Queríamos conhecer Zanzibar, mas fugindo do agito das praias mais turísticas. Acabamos passando nossa última semana em Paje, que tem o tipo de praia que eu gosto, areia branca, com ventos constantes (mais sem levantar areia), água cristalina e morna. O lugar também é praticamente deserto, a não ser pelos praticantes de kite surf e uns poucos hotéis e restaurantes. Perfeito.

Zanzibar é uma cultura à parte. Para começar, a maioria da população é mulçumana, legado dos vários povos árabes que governaram a ilha ao longo dos séculos. As túnicas coloridas das mulheres (o véu preto não é muito utilizado) contra o verde monocromático das plantações criam um belo quadro tropical. Mesmo com a forte influência islâmica, o modo de vida da ilha é bem relaxado... Bom, vamos parar com eufemismos. O lugar parece a Jamaica, pelo menos em relação à maconha. Há muitos rastas na ilha, para quem o uso da erva é sacramentado (ou indiscriminado). Eu e Guico caminhávamos na praia quando um vendedor nos parou para oferecer seus produtos: “oi, vocês querem alugar uma motocicleta? Não?! E comprar haxixe e erva? Não? E que tal umas mangas?” Foi a abordagem de venda de drogas mais engraçada que já recebemos.

A culinária em Zanzibar também é única. Rica em pimentas, frutos do mar e outras especiarias, vale a pena passear por lá só para saborear os vários pratos de lula, lagosta, ou kingfish pescado na costa. A surpresa gastronômica ficou com o restaurante rasta African Barbecue. Apesar do serviço ser feito em modo tartaruga e cada garçom ter um baseado pendurado no canto da boca, a comida era deliciosa e nenhum cozinheiro perdeu o braço no processo. Realmente surpreendente!

Aproveitamos as férias em Paje para aperfeiçoar a técnica de ficar de bobeira na praia e comer frutos do mar. Posso dizer que já somos profissionais no assunto. Na próxima vez que visitarmos Zanzibar, prometemos ter aulas de kite surf, ou sair em um safári aquático, ou correr na areia branca da praia. É, em uma próxima vez, quem sabe? Ou ficaremos jogados dias a fio em uma das piscinas naturais da praia, morgando até ficarmos mais enrugados que uva passa.Também é uma ótimo plano, né?

 

Fotos Safári: http://mudnews.multiply.com/photos/album/239

Fotos Zanzibar: http://mudnews.multiply.com/photos/album/240/240


Observando o Kili da entrada do parque, eu tinha impressão que a montanha mais alta da África se divertia com os milhares de turistas e alpinistas que ali se preparavam para tentar alcançar seu cume, a 5.895 metros acima do mar. Embora a subida do Kilimanjaro possa ser feita inteiramente a pé, a empreitada está longe de ser fácil. Eu e Guico escolhemos subir pela trilha Marangu, com seis dias de caminhada intensa até o topo de uma das sete montanhas mais altas do mundo. 

Como a escalada não estava nos planos originais (“E aí, o que vamos fazer com os dias que passaríamos no Egito? Sei lá, vamos escalar o Kilimanjaro.”), fomos nos informando e arranjando os equipamentos ao longo do trajeto até a Tanzânia. Com toda lista de alpinistas de primeira viagem comprada ou alugada, nos encontramos com a equipe que nos acompanharia durante toda expedição: seis carregadores (os caras correm montanha acima com as malas, panelas e comida nas costas), um cozinheiro, dois guias e nossa dada Tone e sua equipe.

Pole Pole. “Devagar e sempre,” uma das primeiras palavras em Swahili que aprendemos, nos acompanharia durante toda a jornada. O segredo em driblar o mal das montanhas está em ascender beeem lentamente, beber muita água (o recomendado é pelo menos 3 litros por dia) e caprichar nas refeições (a ingestão calórica é de mais ou menos 4000 calorias/dia).  Mesmo cumprindo a lista indicada, ainda resolvemos seguir o conselho do nosso guia e tomar uma medicação que minimiza os efeitos da altitude.

No primeiro dia caminhamos 5 horas entre a floresta, subindo até Mandara, nossa primeira parada a 2.700 m e o último acampamento com chuveiros. A equipe inteira parecia estar tranquila, incluindo Tone – nossa companheira de escalada norueguesa/brasileira/africana/cara-de-tailandesa – que não havia tomado o remédio. No segundo dia, no entanto, todo o grupo se sentiu meio esquisito. A ascensão até Horombo (3.720 m) foi sofrida. Pegamos ventos fortes na paisagem semi-árida, chuva gelada com granizo e instalações precárias (o banheiro no meio do parque já deve ter sido usado para arrancar confissões de prisioneiros). Para melhorar o quadro, eu ainda fiz as seis horas do percurso com fortes cólicas e dores de estômago. Ninguém merece.

Depois de tanto perrengue, foi um alívio ter um dia extra de aclimatação em Horombo. Tone, eu e Guico transformamos nossa cabana em um pequeno lar (ou pequeno cortiço, com todas as roupas penduradas para secar), comemos milhares de calorias no refeitório (dividido com Ratatouille e seus amiguinhos roedores) e caminhamos 4 km até Zebra Rock, um paredão marcado por listras pretas e brancas. Na volta para o acampamento, recebemos um lembrete do desafio que teríamos logo à frente: uma mulher que havia tentando subir o cume estava sendo transportada para a base da montanha de maca. Esse já era o segundo resgate que presenciávamos.

Uma média de 10 turistas por ano morre tentando escalar o Kilimanjaro. A estatística não engloba carregadores e outros profissionais que sucumbem na montanha. Para estes, restam as homenagens prestadas por seus companheiros, galhos e folhas secas amontoadas no local onde o Kili foi implacável. Apesar de estarmos seguindo à risca o protocolo de segurança, a jornada que se aproximava deixava-nos apreensivos. Acordaríamos cedo no quarto dia para percorrer 6 horas no deserto montanhoso até Kibo, o último acampamento a 4.700 m, descansando algumas horas até a meia-noite, quando subiríamos mais seis horas, caminhando os últimos 1000 metros até o pico de prata (Gillman´s Point - 5.685 m) ou o da neve eterna, conhecido como Pico Uhuru (5.895m).

Eu e Guico fomos uns dos únicos a completar o trajeto até Kibo sem maiores alterações físicas. Tone começou a sentir dificuldade de respirar e enjôos, e acabei carregando sua mochila por boa parte do caminho. Vários outros hikers também passaram mal, com dores de cabeça, vômito e diarréia, indicativos de um quadro agudo de mal da montanha. A cabaninha de madeira que os locais apelidaram de banheiro tinha uma fila maior que a do posto do INSS.

Das quatro da tarde até às 11 da noite, ficamos no dormitório do acampamento tentando descansar as pernas. Apesar de termos caminhado 6 horas durante o dia, era impossível dormir. Além da ansiedade e das pessoas que iam e vinham do banheiro, tínhamos que continuar bebendo água e comendo carboidratos para evitar problemas nos últimos mil metros, sem dúvida os mais desafiadores do percurso.

Levantamos às 23 horas como se chamados para guerra. Mecanicamente, começamos a nos equipar para encarar os 10 graus negativos que nos esperavam do lado de fora. Eu vestia meia calça, uma calça de lã e uma calça corta-vento por cima, duas blusas tipo segunda-pele, um casaquinho curto, duas jaquetas de inverno, balaclava, gorro, duas luvas e duas meias e mesmo assim ainda senti um pouco de frio quando diminuíamos a marcha. Após alcançarmos os 5 mil metros, conhecido como Indian Point, a força do Kilimanjaro tornou-se esmagadora. Dada Tone acabou ficando para trás, vencida pelos enjôos. Vimos vários hikers continundo montanha acima, vomitando e cuspindo sangue ao longo do caminho, em uma demonstração da tênue linha entre a bravura e a estupidez humana.

Eu tinha uma regra, só tentaria alcançar o cume se estivesse bem. Arriscar a própria vida para tirar uma foto no alto de uma montanha é, como diria meu sogro, “um tesão besta”. A 5.400 metros, quase quatro horas de escalada depois, comecei a sentir uma leve dor de cabeça. Diminuí o ritmo. Nosso guia repetia, pole pole, pole pole. Não teve jeito.  Faltando 185 metros até o Gillman´s Point, o equivalente a mais ou menos uma hora de caminhada, comecei a sentir náuseas. Para mim, o sintoma era ainda mais problemático, já que geralmente só paro de vomitar com medicamentos. Voltamos para Kibo segundos antes de eu deixar meu jantar do lado de fora do dormitório.

Embora a maior dificuldade tivesse passado, a descida até os portões do parque não foi bem uma moleza. Com o nascer do sol, andamos mais 7 horas até Mandara, o primeiro acampamento a 2.700 m, completando 19 horas de caminhada em 30 horas. A respiração fica mais fácil a essa altitude, mas os joelhos sentem o impacto do rápido decesso. Quase sem sentir as pernas, resolvemos pernoitar por ali, completando as últimas 3 horas até a saída do Kilimanjaro no dia seguinte.

Exaustos, fedidos e felizes, Tone, eu e Guico nos abraçamos para uma última foto na saída do parque. Aventura, medo, risadas, o Kili é muito mais do que uma montanha. A experiência extrema havia transformado nossa pequena equipe em uma família. O sentimento de superação e esgotamento é um pouco inexplicável. Começamos a descida dizendo que só repetiríamos a expedição por alguns milhões, e chegamos aos portões pensando em uma maneira de nos encontrarmos daqui a algum tempo para tentarmos o cume mais uma vez.

Por agora, Dada Tone voltou para as férias com sua família em Dar es Salaam e eu e Guico seguimos para nossa segunda aventura na Tanzânia, seis dias de safári em algumas das maiores reservas florestais da África.

“Jambo, Jambo Bwana. Habari gani? Mzuri sana! Gani wa karibishwa. Kilimanjaro, hakuna matata!” (Música do Kilimanjaro em Swahili. Cantamos quase todos os dias. Inclusive para calar vizinhos mal educados.)

*Dada: Irmã em Swahili

Fotos: http://mudnews.multiply.com/photos/album/238/Kilimanjaro_Tanzania_13_a_19_jan


Blog EntryJan 12, '12 12:50 PM
for everyone

Nosso itinerário original apontava o Egito como próximo destino no mapa mundi. Porém, uma singela revolução árabe atrapalhou um pouco nossos planos. Para felicidade de nossos pais, decidimos deixar a visita às pirâmides para uma próxima vez, quando a política egípcia estivesse mais estável. Ainda assim, por causa das conexões da matina para Jordânia, acabamos pernoitando no país e presenciando o forte esquema de segurança, com homens armados na saída do aeroporto e ônibus de turismo vazios. O temido trâmite do aeroporto, com retirada de vistos e passagem pela imigração e militares, foi na verdade uma passeio no parque. Graças aos funcionários do Novotel  Cairo International Airport que nos receberam na área de desembarque e tomaram todas as providências necessárias. Nunca fui tão ignorada pelos oficiais da imigração.

O hotel em si é excelente, dentro dos padrões esperados para acomodações quatro estrelas da Accor. O maior luxo em nossa estadia, no entanto, foi um presente da sorte. No salão principal, realizava-se um casamento egípcio tradicional, com banda árabe típica e uma noiva super produzida dentro dos moldes mulçumanos (vestido longo branco de manga comprida e véu cobrindo toda cabeça). A experiência só aumentou a curiosidade sobre o país. Saímos em direção a Petra, na Jordânia, torcendo para que os egípcios encontrem a paz rapidamente.

Como a maioria das pessoas, meu único contato com Petra tinha sido através do filme Indiana Jones e a Última Cruzada (1989). Nessa obra prima da Sessão da Tarde, Indiana e seu pai chegam ao templo conhecido como O Tesouro para tentar impedir que o santo graal ali escondido seja capturado pelos nazistas.  

Mesmo meio tosca, a experiência Hollywoodiana foi o suficiente para incitar meu desejo de conhecer de perto a cidade histórica dos nabateus, os arquitetos da maioria dos monumentos fantásticos da região, datados do primeiro século depois de Cristo. Antes, porém, teríamos que andar 4 horas em um mini ônibus, percorrendo o trajeto árido entre a capital Amman e Wadi Musa, a cidade mais próxima à Petra.

A viagem foi tranquila, principalmente pela companhia de nosso mais novo amigo, Mohamed, um guarda da segurança nacional super interessado na vida no Brasil. Depois de horas de semi-papo (limitado pela falta do Google Translator), fomos convidados para passar a noite com sua família, numa demonstração genuína da hospitalidade jordana que recebemos em quase todo país. Infelizmente, tivemos que recusar e seguir adiante, pois perderíamos o pagamento e a reserva no nosso hotel (na verdade um acampamento beduíno bem rústico, mas legal). Doídos com a perda da oportunidade de uma experiência cultural mais real, passamos o resto dos dias procurando o rosto de Mohamed em todos guardas que andavam pela cidade. Sem sucesso na empreitada, voltamos nossas atenções para o coração da viagem, visitar uma das sete novas maravilhas do mundo.

O sítio arqueológico de Petra é tão majestoso e impressionante quanto sua fama mundial, superando todas expectativas, a começar por seu tamanho, uma área de 264 km² repleta de templos, tumbas e casas, quase todas visitáveis. Não fosse pela quantidade de turistas, você poderia se imaginar como primeiro explorador de uma cidade mística perdida, descobrindo as construções feitas de um único bloco de pedra entre a paisagem pedregosa rosada. Mesmo assim, a visão do maior marco da cidade dos nabateus, a edificação conhecida como O Tesouro, é algo emocionante. Passando por fendas estreitas entre paredões de rocha, você nunca esperaria encontrar a fachada magnífica desse monumento na próxima curva.

Petra é tão extensa, e tão interessante, que um dia não é suficiente para apreciá-la da maneira certa, a não ser que você seja um daqueles turistas que entra no Louvre correndo, bate foto da Monalisa e vai embora. Apesar da entrada para o parque ser incrivelmente cara (50 libras jordanas por dia, o equivalente a 55 euros), o valor fica mais acessível à medida que você passa mais dias no sítio (27,50 JD/dia para tickets de dois dias, ou 20 JD/dia para três dias consecutivos). Eu e Guico fizemos tudo em dois dias, e mesmo assim ficamos exaustos, caminhando uma média de quase 5 horas por dia.

Além da maratona, o passeio se torna cansativo devido aos milhões de vendedores insistentes que te empurram cartões postais, caronas em burros e camelos e bijuterias beduínas feitas na China. Chegamos até a pensar em pregar uma folha com “No, Thanks” na nossa jaqueta no segundo dia. Além dos comerciantes carrapatos, a falta de restaurantes e cafés dentro do sítio também incomoda. É bom levar um lanche do hotel, ou esperar para comer em um dos restaurantes mais afastados da entrada principal, onde tudo é mais caro e de qualidade duvidosa. Eu e Guico comemos um delicioso frango assado com arroz árabe e molho de iogurte no Sand Hills, um daqueles estabelecimentos simples em que você é tratado como realeza.

Terminar a caminhada pelas ruínas e voltar para o Seven Wonders, nosso acampamento beduíno, era uma aventura por si só. O por-do-sol e a noite estrelada no meio do deserto são dignas de aplauso. Não cansávamos de admirar a paisagem todas as noites, quando nos juntávamos aos outros hóspedes em volta da fogueira para tomar um chá de hortelã com os locais. Acho que se não fosse pelo frio – a ida ao banheiro no meio da noite era mais dolorosa que caminhar descalça em cima de pregos – poderíamos morar por lá. Ok, se não fosse o frio e se eles tivessem internet.

Nossa passagem pela Jordânia foi rápida, mas intensa. Poder contemplar o trabalho glorioso de Petra, realizado há mais de 2 mil anos, é uma lição de humildade. Você se sente pequeno perto das imponentes edificações, e, ao mesmo tempo, vendo o que restou de todo um povo, consegue sentir o que realmente importa na vida. A melhor descrição da cidade antiga fica com as palavras de John William Burgon, poeta turco ganhador do prêmio Newdigate de 1845 por seu poema “Petra”:

“It seems no work of Man's creative hand,

by labour wrought as wavering fancy planned;

But from the rock as if by magic grown,

eternal, silent, beautiful, alone!

Not virgin-white like that old Doric shrine,

where erst Athena held her rites divine;

Not saintly-grey, like many a minster fane,

that crowns the hill and consecrates the plain;

But rose-red as if the blush of dawn,

that first beheld them were not yet withdrawn;

The hues of youth upon a brow of woe,

which Man deemed old two thousand years ago,

match me such marvel save in Eastern clime,

a rose-red city half as old as time.”

 Fotos: http://mudnews.multiply.com/photos/album/237/237


Blog EntryJan 7, '12 4:48 PM
for everyone

E então, no segundo capítulo da viagem de volta ao mundo, saímos da Europa em direção ao continente africano. Tudo iria mudar, é claro. O inesperado foi que nossa primeira aventura de terceiro mundo não aconteceu em Marrakesh, o primeiro destino na África, mas sim na saída de Sevilha. Como todos que passam por essa experiência, fomos seduzidos a viajar de Ryanair, a companhia lowcost mais usada pelos europeus, por causa do custo. Por 30 euros por pessoa, o voo de 2 horas para Marrakesh soava como cântico dos deuses. Não sei quem uma vez disse – talvez tenha sido o irmão do Murphy – que quando a esmola é demais, o santo desconfia. Eu com certeza desconfiava que passaríamos por algum perrengue. As palavras do guia “King Julian” ainda ecoavam em minha cabeça, “leve uma mala de 10 quilos para Ryanair e eles te mostrarão uma que pesa 20.” O milagre da multiplicação dos quilos deve faturar bastante, já que os caras cobram vinte euros por quilo extra em cada mala despachada. Detalhe importante, você só pode levar uma mala de 15 kg nas viagens internacionais. Mala impossível = quilos extras = $$$$$$ para Ryanair = passagem barata é pegadinha.

Para evitar a equação acima, eu e Guico chegamos super cedo no aeroporto. Nossa estratégia era pesar as malas para ver se despacharíamos uma terceira bagagem (entre 40 a 80 euros a mais na conta), jogaríamos coisa fora, ou, como sugeriu “King Julian”, vestiríamos todas nossas roupas uma em cima da outra na área de embarque. Optamos pela terceira solução. Eu vestia uma blusa de manga comprida, uma jaqueta de couro e um sobretudo e ainda levava na mão um outro casaco com uma blusa de inverno anexada ao forro. Super chique!

Feita a sauna aérea, ficamos felizes em encontrar Marrakesh no final da tarde com o vento fresco característico do inverno dando boas-vindas. A cidade te eletriza com tanta coisa diferente, que foi impossível piscar até chegarmos no riad. São tantas rosas na saída do aeroporto e todas as casas são pintadas da mesma cor e cuidado, a moto vai bater no táxi e olha, só tem uma entrada para a Medina e será que nosso Riad é por aqui, parece uma favela...  E chegamos.

Saímos para jantar logo após o check in no Riad Al Tainam, que fica dentro da Medina, a área fortificada da antiga Marrakesh. Confesso, a primeira saída foi um pouco assustadora. Muita gente, motos, bicicletas e barraquinhas amontoadas em ruas estreitíssimas. Era tanto detalhe para prestar atenção, a carteira (você colocou no bolso de dentro do casaco?), a máquina (serei assaltada se levar esse trambolho na mão?), o trânsito (meu seguro cobre atropelamento por charrete?), a roupa (tenho que cobrir o pescoço, ou serei apedrejada!), que voltamos para o hotel um pouco estressados.

No dia seguinte, caminhamos através de mais gente, barracas, motos e charretes até o souk, o famoso mercado árabe com milhões de lojinhas especializadas em artigos locais, como bolsas em couro, vestidos típicos e doces árabes. Compramos uma caixa de doces variados e fomos nos aventurar na Praça Jeema el Fna, o lugar mais agitado de Marrakesh, apinhado de tendas de especiarias, carroças-restaurantes e muita gente tentando te vender de tudo um pouco: fotos com cobras, galinhas vivas, brinquedinhos para criança e milhares de bugigangas. A sensação é que alguém jogou uma bomba em um formigueiro. Apesar da lotação, é muito interessante comer em um dos restaurantes da Medina, ou mesmo em uma das barraquinhas que surgem à noite no meio da praça. Afinal, é no meio da multidão que você consegue melhor observar a diversidade marroquina. Senhoras cobertas da cabeça aos pés passeiam ao lado de mulheres maquiadas, homens de jaqueta de couro se fazem notar com a buzina da moto, enquanto outros usam um traje tradicional que lembra uma manta de mago. Aos poucos, relaxando com um pedaço de kebab, ou provando um delicioso prato de couscous, você percebe que apesar da loucura da cidade a única pessoa estressada é você. O medo do desconhecido, o barulho, a multidão afloram todos os sentidos, mas recobrado o olhar viajante, tudo entra em perspectiva. Nossa última noite em Marrakesh com certeza foi mais bem apreciada que a primeira, quando girávamos em torno de nós mesmos e não do lugar que visitávamos. Claro, deve-se ter cuidado com a bolsa e outros pertences, mas nada que difira muito de outros pontos mega turísticos, como Roma e Madrid.

Contrastando com essa explosão urbana, nosso passeio pelo interior do país foi bem roots. Por 60 euros por pessoa, passamos dois dias explorando vilas históricas e dormimos em um acampamento nômade no meio do deserto. A viagem por estradas sinuosas entre as montanhas Atlas foi muito interessante. O interior árido é casa de vários marroquinos que constroem suas casas na montanha ou à beira de riachos. As construções, da mesma cor do deserto, fazem com que as portas e janelas coloridas sobressaiam na paisagem, como se o pintor da obra quisesse que você focasse seu olhar ali.

Nossa primeira parada em Âït-benhaddou foi uma visita de outro mundo. Essa cidade-fortaleza, considerada patrimônio da humanidade pela UNESCO, fica entre o deserto do Saara e Marrakesh. Feita inteiramente de barro, a kasbah, nome árabe dado a esse tipo de construção, desaparece um pouco a cada ano, após as chuvas de inverno. No entanto, voluntários da UNESCO tem reconstruído a cidadela, a edificação mais impressionante que já visitei. Âït-benhaddou parece cenário de algum filme épico e, exatamente por isso, já foi usada em mais de 25 obras da telona, entre elas Lawrence da Arabia (1962), Tudo por Uma Esmeralda (1985), Gladiador (2000) e Sex in the City 2 (2010).

Do outro lado do rio que separa Âït-benhaddou de construções mais modernas também feitas de barro, há vários restaurantes típicos com pratos variados da deliciosa comida marroquina. Kebab, couscous de vegetais ou de carne, tajines (pratos cozidos lentamente em um recipiente de cerâmica) e sobremesas de amêndoas e mel são algumas das especialidades que eu e Guico mais gostamos. Outra maravilha culinária são os pães, especialmente o msaman, que lembra uma tortilha macia, servido quente durante o café da manhã. Dá para experimentar vários pratos gastando pouco, e depois fazer a digestão tomando um chá árabe com hortelã.

Apesar da venda de bebidas alcoólicas ser desencorajada no país, os sucos de frutas preparados na hora são deliciosos, porém, se você busca mais emoção, recomendo esquecer a busca por bebida e fazer um passeio nômade no deserto. Assim que o sol começa a se esconder, é hora de dar adeus para o guia e escolher um camelo (ok, um dromedário) para percorrer 2 horas deserto adentro. Os bichos são super mansos, mas dão a impressão de virem com uma perna mais curta que a outra, porque, meu Deus! Rebolam mais que uma funkeira carioca. Assim que chegamos realmente no deserto, onde a areia é mais fofa, o rebolado diminui, mostrando que estávamos atingindo a marca: mais uns minutos e estaríamos no acampamento.

A visão das tendas montadas, iluminadas somente por lampiões no meio das dunas, era espetacular. Depois de um reconhecimento rápido do território (“onde fica o banheiro?”) passamos para a barraca maior, que servia de restaurante. O menu do jantar incluía sopa e pão marroquino, tajine de frango com legumes, chá árabe, tangerinas e muita risada com a galera do tour, cada um de uma parte do mundo. Fazia um frio de rachar, então nos reunimos em volta da fogueira após a ceia, enquanto uma banda de nômades desafinados, mas muito animados, fazia um batuque. Eu e Guico fomos cedo para cama – andar de camelo por 2 horas não é para qualquer um – mas ainda escutamos a música rolando solta por algum tempo.

Voltamos para Marrakesh animados com a perspectiva de um banho e de uma cama de verdade, mas não trocaríamos a experiência no deserto por nada. Mesmo a dor nas pernas e nas costas – consequência de duas horas de carona animal desengonçada – não nos desanimou. Ainda conseguimos nos despedir do país, e da bagunça eletrizante de Marrakesh, com um kebab de um dos restaurantes típicos da Praça de Jeema el Fna. No fim, guardaremos a energia única de Marrocos para sempre na lembrança, juntamente com esses ensinamentos que se aprende em viagens assim: nunca julgue um livro pela capa.

 

Fotos: http://mudnews.multiply.com/photos/album/236/Marrocos_2_a_7_de_janeiro


3...2...1! FELIZ ANO NOVOOOO!!!! Pois é, amigos, quatro meses passaram voando. Eu e o Guico brindamos a virada no ponto mais ao sul da nossa rota européia, cheio de amigos de todas as partes do mundo e muita bebida. Mesmo assim, passamos o dia 31 meio descrentes de que o ano estava mesmo saindo de cena. Para nós, 2011 será para sempre lembrado como o ano que colocamos nosso grande sonho para percorrer o mundo com uma mochila nas costas. Cada segundo tem sido inacreditável. Nos apaixonamos tão rapidamente pela vida de viajante e pelos lugares e pessoas que conhecemos, que talvez tenhamos que repetir a dose algum dia. De qualquer forma, estamos saboreando cada momento desse sonho que fizemos acontecer. Talvez por isso, nos sentimos ainda mais vivos no trajeto pelo sul da Espanha. Acho que visitamos Toledo, Córdoba, Granada e Sevilha com todos os sentidos em alerta máximo.

Toledo foi um dos lugares mais marcantes que visitei no sul da Espanha. Considerada patrimônio da humanidade pela UNESCO, a cidade foi capital do país até 1506 e, devido a seu passado glorioso, ainda conserva um grande número de construções medievais magníficas.

Pausa. Vamos falar a verdade, né? A razão de Toledo ter sido tão especial não tem tanto a ver com arquitetura, mais sim com um simples acontecimento: a chegada do Guico. Depois de quase quatro meses viajando sola, meu namorado finalmente desembarcou na Espanha para adicionar outra voz a essa narrativa.

Curti muito viajar sozinha, mais do que imaginava. A gente fica mais aberta às pessoas e às experiências diferentes, além da liberdade de fazer o que se quer, quando der na telha. Mas depois de quase quatro meses, é muito legal ter alguém para dividir o pensamento, as descobertas e a conta do hostel.

Eu e Guico gostamos muito de Toledo, principalmente da cidadela histórica delimitada por muros altos e portais de pedra, como a Puerta de Bisagra e a Puerta del Cristo de la Luz. A influência moura na região é impressionante. Todas as construções do centro antigo utilizam o tijolo branco característico do norte da África, de uma terra que tinha somente o barro do deserto como matéria prima. Foi somente depois de algum tempo no novo território que os mouros começaram a incorporar as pedras européias ao design típico dos árabes, caracterizado pelas famosas portas e janelas em formato afunilado e pátios internos adornados por fontes e jardins.

O mais interessante é que a técnica arquitetônica moura não foi só utilizada na construção de mesquitas, mas também na de sinagogas e igrejas. No século XIII, Toledo era conhecida por sua tolerância religiosa, abrigando grandes comunidades de cristãos, judeus e muçulmanos. Tudo graças ao Rei Afonso X, El Sábio, que decretou a perseguição religiosa como ilegal. A paz entre as diferentes culturas permitiu uma maior troca de conhecimento, tanto entre os religiosos, como entre os engenheiros da época, resultando nos belíssimos edifícios em estilo mudéjar que visitamos, como a Catedral Primada e a Sinagoga del Tránsito.

Outro elemento típico da cidade é o mazapán, um doce feito de amêndoas e açúcar, que além de ser uma delícia, vem recheado de história. O folclore toledano diz que essa sobremesa tradicional foi criada por volta de 900 d.C., quando a fome assolava a cidade. Rica em amêndoas, que eram coletadas das terras vizinhas como dízimo, os moradores aproveitaram o ingrediente, misturando-o com açúcar e mel, para criar o doce que salvou boa parte da população. Achei o par perfeito para acompanhar meu cafezinho da tarde.

Adoramos o ar misterioso de Toledo, acentuado pela mistura ibero-islâmica que acompanha toda Andaluzia, a região sul da Espanha. Como nosso plano era descer pelo país, iríamos experimentar mais dessa salada cultural. No entanto, antes de aproveitarmos o restante da viagem, fomos submetidos a uma provação. Pegamos o ônibus de 5 horas para Córdoba com a ilusão de que seria uma boa oportunidade para conhecer a paisagem interiorana e economizar alguns trocados. O barato saiu caro. Ou melhor, fedido. Só conseguimos pregar o olho por poucos minutos, antes que uma mulher – que como resumiu um amigo nosso uruguaio, “fedia mais que a besta” – sentasse atrás da gente. Não acordamos com o barulho, mas sim com o budum, mais forte que queijo roquefort. A situação não estava bela, e só piorou quando o ar condicionado do ônibus quebrou. Cinco horas de sauna e fedor, ninguém merece.

Chegamos em Córdoba um pouco zonzos, mas fomos logo seduzidos pela cidadezinha de clima ameno, superpopulação de barzinhos e praças banhadas de sol. Como em Toledo, a mistura religiosa do século XIII resultou em passeios legais, o top two ficando com o Museo de La Torre e a Mesquita-Catedral. O museu retrata a era ibero-islâmica de uma forma muito interessante, com maquetes antigas da cidade, artefatos culturais mouros e discursos inusitados de importantes personagens históricos cristãos e árabes. A mesquita, apesar de linda, possui uma história mais conturbada. Originalmente um templo pagão, tornou-se uma igreja visigoda cristã em 600 d.C., antes dos árabes tomarem o local para depois construir sua imponente mesquita. Após a expulsão dos mouros e outros grupos religiosos do território espanhol, com o confronto conhecido como a Reconquista de 1492, a mesquita foi transformada em catedral. Para nós, passear em seu interior foi uma cacofonia religiosa. Afrescos católicos convivem com arcos e inscrições árabes, enquanto velas parecem menos presentes que incensos.

Para terminar a aula de história, fomos tomar uma cerveja na Plaza de la Corredera. Com várias taparias e abençoada com sol até às 5 da tarde, a praça é o ponto de encontro dos cordobeses. Imitando os locais, pedimos uma tortilla e uma tapa de carne com molho de tomate e ficamos lagarteando até o final da tarde, quando a cidade esvaziou por ser véspera de natal. Guico e eu comemoramos a data com uma ceia improvisada – risoto, lombo ao molho de laranja, salada e vinho – junto aos amigos do hostel. Sentimos muitas saudades da família, é claro, mas foi muito gostoso passarmos esse momento juntos.

No dia 25, pegamos um ônibus (dessa vez livre de gambás) para Granada, mãe de um dos legados mais famosos do período islâmico em Andaluzia, o Alhambra.  Para conhecer a cidadela e palácio árabes é necessário agendamento prévio, especialmente no verão, quando os horários disponíveis esgotam com mais de um mês de antecedência. O passeio vale cada centavo dos 14 euros do ingresso. Debruçada sobre uma colina, a fortaleza de Alhambra parece guardar a cidade. O interior é ainda mais marcante, afinal não é todo dia que visitamos um castelo árabe, ainda mais dessas dimensões. As portas e janelas dos Palacios de Nazaríes, a ala mais disputada do castelo, são adornadíssimas, recobertas por um minucioso trabalho árabe em alto relevo, com orações, motivos religiosos ou ornamentais talhados no gesso. Ao redor da cidadela, como em toda Granada, há também várias lojinhas com doces e objetos árabes, tantas, na verdade, que nos sentimos fazendo turismo no oriente médio.

Apesar do Alhambra ser o popstar de Granada, a cidade tem uma lista de opções bacanas. O walking tour histórico por Sacromonte, o bairro árabe, foi engraçadíssimo, um dos melhores que já fiz. O guia, um inglês que falava igual ao King Julien do Madagascar, misturava dados históricos com stand up comedy. O cara era tão bom, que eu e o Guico passamos o resto dos dias na Espanha repetindo suas tiradas. Além desse passeio meio cômico, dá para visitar as casas-cavernas dos ciganos (algumas com dois andares!), assistir shows de dança flamenca e se esbaldar nas taparias tradicionais que servem as tapas de cortesia quando você pede uma bebida no bar. Aliás, essa foi uma das grandes surpresas gastronômicas da cidade, duas taças de vinho, duas cervejas e quatro tapas deliciosas por apenas 10 euros. Yum!

Depois de quase 10 dias pelo sul da Espanha, deixamos Granada sentindo que a viagem pela Europa estava chegando ao fim. Era hora de nos despedirmos do circuito europeu em grande estilo, com cinco dias de boa vida em Sevilha, a capital ensolarada da Andaluzia. Embora tenhamos visitado alguns monumentos históricos – a Plaza da Espagna (a mais bonita do país, já que várias cidades espanholas tem praças com o mesmo nome), a catedral, e a universidade, que também já foi uma fábrica de tabaco – Sevilha é a cidade mais cosmopolita do Sul, com ótima gastronomia e vida noturna, exatamente o que precisávamos antes de descambarmos para África.

O prêmio de melhor experiência gastronômica ficou sem dúvida com o menu degustação do Las Escobas. Situado em frente à Catedral de Sevilha, o restaurante data de 1386 quando funcionava como uma taverna e loja de secos e molhados. O local também já serviu de pousada à beira do rio para os milhares de viajantes que passavam por ali, na época em que a cidade fazia parte da rota da Índia. Desde o século XVI, a chamada Idade do Ouro da Espanha, poetas locais, escritores e artistas frequentam o estabelecimento. Dizem que Cervantes escrevia com giz na mesa do bar antes de passar seu trabalho para o papel e que Velázquez chegou a pintar uma moeda enquanto comia para depois usá-la como pagamento pelo jantar.

Um lugar com tanta história e lenda ostenta com orgullho os sinais que atestam sua passagem pelo tempo, como o telhado de mogno carvado à mão, o piso de mármore, ou os artefatos antigos usados como decoração. Localizado em um ambiente privilegiado, o Las Escobas oferece uma cozinha simples e saborosa com base na culinária tradicional andaluza. O menu degustação que provamos inclui os melhores bolinhos de bacalhau com tomate seco que já comi, uma sopa fria de salmão com presunto, um espeto grellhado de carnes variadas típicas e outro de frutos do mar, duas cervejas, uma sobremesa árabe com vinho do porto para acompanhar e tudo, pasmem, por 22 euros por pessoa!

Na mesma rua do Las Escobas fica o Auditório Alvares Quintero, onde nós assistimos um espetáculo fantástico de Flamenco. Apesar de já termos visto outro show em Granada, esse com certeza foi especial, com um guitarrista que parecia ter 8 dedos em cada mão (o Guico babando na plateia) e um casal de dançarinos profissionais super carismáticos (eu babando do lado dele). Vale muito a pena chegar com meia hora de antecedência, quando o salão abre, para pegar um lugar bem na frente. Afinal, 70% da dança flamenca está no movimento dos pés. Ah! E comprando o ingresso até às 17 horas, você ainda economiza 3 euros por pessoa para depois tomar uma sangria nos bares da região.

Nos mimamos um bocado em Sevilha, mas consideramos mais um presente de despedida. Afinal, sabe-se lá o que vem por aí no continente africano, né? Seja o que for, estamos extasiados para começar mais uma aventura, a próxima a ser vivida no cenário místico de Marrakech.

Fotos Toledo: http://mudnews.multiply.com/photos/album/232/Toledo_Espanha_19_a_23_de_dezembro

Fotos Córdoba: http://mudnews.multiply.com/photos/album/233/Cordoba_Espanha_23_a_25_de_dezembro

Fotos Granada: http://mudnews.multiply.com/photos/album/234/Granada_Espanha_25_a_28_de_dezembro

Fotos Sevilha: http://mudnews.multiply.com/photos/album/235/Sevilha_Espanha_28_de_dez_a_02_de_jan


Blog EntryDec 19, '11 9:21 AM
for everyone

Se Madrid conseguisse falar, ela te chamaria para a balada. Você já sente a energia da cidade logo quando chega: os madrileños falam alto, te abraçam, furam fila, tudo ao mesmo tempo. Em vez das Marchés de Noel francesas, multidões na frente das baladas, muitas opções de pub crawls e happy hours com tapas.

O Free Walking Tour não foi só um passeio pela Plaza del Sol, o Passeo del Prado e seus museus, ou por construções arquitetônicas com influência moura, mas também um teste prático em costumes espanhóis. O tour começava às 11:30 e terminava às 15 horas, sem paradas para comer, já que o almoço em Madrid começa às 14:30 e a janta só às 22 horas. Como nenhum de nós era espanhol, imploramos por um lanche. Acabamos parando no Museo del Jámon, uma loja com mais de 200 peças de variados tipos de presunto, onde a baguete de presunto parma com queijo brie custa somente 1,50 euros e é uma delícia.

Os madrileños podem não comer muito, mas compensam na bebida. À noite, eu e cinco amigos do hostel fomos em um pub crawl com mais outras 15 pessoas. Passamos em 3 bares e uma balada, todas lotadas! A vida noturna de Madrid lembra muito a brasileira, com música eletrônica e várias garrafas de vodca. Enquanto as boates em outros lugares da Europa terminam por volta das 3 da manhã, em Madrid, uma balada que se preze só fecha depois das oito. Cafés-com-leite como eu tem que se esforçar muito para acompanhar a galera local. E mesmo com incentivos gratuitos vindo do bar, ainda voltei para o hostel 4 horas mais cedo que o resto do grupo.

O dia pós-balada deve ser de descanso, certo? Não em Madrid. Eu, um carioca chamado Yuri e Jacob, um chef de NY, aproveitamos a tarde para visitar o Thyssen, um dos museus do Passeo del Prado, com quadros da Renascença até o século XVIII. Depois do banho cultural, curtimos um banho gastronômico. Era noite de tapas no hostel, onde um chef espanhol preparava aperitivos típicos acompanhados de coquetéis e cerveja. Meu fígado já estava rindo da minha cara (de amadora). Apesar de ter me divertido bastante e de ter aprendido algumas receitas, fui dormir jurando que passaria boa parte do dia seguinte na cama.

Não aconteceu. Meus amigos me acordaram ainda cedo para aproveitarmos as tapas do mercado municipal. Que maravilha! Tendas até perder de vista vendendo empanadillas, tapas de frutos do mar, coquetéis e sobremesas! Nos empanturramos de comida típica e saímos a tempo de visitar o Reina Sofia, que tem entrada livre todos os sábados após às 14:30. Aliás, a maioria dos museus em Madrid oferece horários gratuitos ao público, provavelmente numa tentativa de competir com as baladas.

Depois de tanta agitação, meus amigos foram fazer uma siesta, enquanto eu, que tinha tomado baldes de café antes do passeio de arte, resolvi ficar de bobeira no lounge do albergue... Exatamente na mesma hora em que produtores de um comercial sobre o hostelworld chegaram para fazer a filmagem. Resultado, quem estiver pela Europa nos próximos meses provavelmente verá o meu debut artístico na TV. O meu mico rendeu até uns trocados, sabiamente investidos em um steak com vinho na hora do jantar.

Era sábado à noite, mas eu pretendia honrar o encontro marcado com minha cama logo após o jantar, já que mal a vi nos dias anteriores. Porém o David, o baladeiro master do hostel, me viu na recepção e me chamou para outro pub crawl com a galera, dessa vez de graça. Minha cama teria que me desculpar mais uma vez. 

Na manhã de domingo, Letícia-zumbi caiu da cama minutos antes do fim do café da manhã, voltando para as cobertas logo depois dele. À tarde, depois de ter feito as pazes com meu sono, fui passear na Gran Via, a rua mais famosa de Madrid, com teatros, lojas e restaurantes instalados em prédios antigos do começo do século XX. A arquitetura do local merecia ser eternizada por fotos, mas minha máquina tinha ficado propositalmente no quarto, já que para cada construção interessante tem pelo menos cinco batedores profissionais de carteira. Três das meninas que conheci foram roubadas caminhando pela cidade. Fica o alerta para quem passar por aqui.

Para aproveitar minha última noite em Madrid, ignorei o sono e fui para um barzinho com o povo do Las Musas Residence, meu hostel super agitado. Na hora da despedida, meus novos amigos me convidaram para passar mais três dias na capital, afinal quarta era dia de sangria na casa do Pedro, um dos DJs do Cocó. Infelizmente, não ia dar. Embora tenha amado Madrid, tenho ainda mais razões para gostar de Toledo... Dia 21 o Guico chega por lá para continuarmos juntos essa maluquice de dar a volta ao mundo. Já estou contando os segundos.

Fotos: http://mudnews.multiply.com/photos/album/231/Madrid_Espanha_14_a_19_dezembro


Blog EntryDec 14, '11 12:00 PM
for everyone

Já ouviu falar de burnout de viajantes? Eu tive um em Lyon. Como assim alguém fica cansada dando a volta ao mundo? Sim, viajar cansa. Não que seja um cansaço ruim, mas tem hora que o corpo reclama. O meu nem se deu o trabalho, só se jogou na cama mesmo.

Eu tinha incluído a terceira cidade mais populosa da França no meu roteiro com um objetivo bem específico, enfiar o pé na jaca da gastronomia do lugar. Afinal, Lyon é considerada a capital gourmet do país, o que não é dizer pouca coisa. O motivo é simples: Paul Bocuse. Desde 1965, o chef du cuisine francês é destaque no guia mais importante e respeitado de hotéis e restaurantes do mundo, o Guia Michelin, com nota máxima: três estrelas. Caso único.

Para ajudar na fama gastronômica, a cidade também recebe eventos de renome, como o Salon International de la Restauration & de l’Hotellerie (SIRHA), o maior encontro internacional de gastronomia e hospitalidade, reunindo os melhores chefs e principais colaboradores do setor numa espécie de congresso mundial de tendências culinárias. Além do SIRHA, o Salon du Chocolat também é realizado em Lyon, aliás, bem nos dias em que eu estaria por lá... Quer dizer, nos dias em que eu tentava estar. Mesmo vendo acomodações com mais de um mês de antecedência, tudo estava lotado. Hotéis cinco estrelas ou galpões com cama, não interessa, não havia nenhuma vaga do dia 08 ao dia 11 de dezembro. Achei estranho, se tudo isso fosse por causa da invasão de chocólatras, a humanidade estaria realmente com problemas (dizem que alguns viciados usam o chocolate para aliviar a depressão, né?). 


Fiz uma pesquisa rápida na internet e descobri o real motivo da superlotação. Além do salão, outro evento ocorre anualmente nessa mesma data, a Festa das Luzes (Fête des Lumières). Dizem que a festa começou no dia 8 de dezembro de 1852, quando uma estátua da Virgem Maria, padroeira da cidade, foi erguida na Basílica de Fourvière. Nessa ocasião, os lyoneses usaram velas para iluminar as janelas de suas casas, em uma homenagem espontânea à Nossa Senhora. 145 anos depois, a prefeitura resolveu oficializar o evento que cresce a cada ano, atraindo turistas de todas as partes da França. Nos últimos doze anos, artistas de luz (arquitetos, iluminadores e grafistas) se juntaram para dar ainda mais esplendor à festa. Colinas, praças, antigas vielas da cidade velha, pontes, pátios, jardins e até as margens dos rios Saône e Rhône tornam-se quadros excepcionais de arte luminosa durante as quatro noites da Fête des Lumières.


Agora eu queria mesmo ficar em Lyon! Arrumei minhas coisas e cheguei à cidade no final do dia 06, para dar tempo de arrumar acomodações para os outros dias. Eu estava exausta. Não tinha dormido muito na noite anterior e ainda andei horas com uma mala de 20 quilos até chegar no hotel. Mesmo assim, estava focada, passei praticamente a noite toda perguntando por vagas em hotéis da região, e depois que ficou tarde, procurando opções online. Infelizmente o esforço não se pagou. Acordei no dia seguinte ainda mais cansada e frustrada. Nem os couchsurfers estavam disponíveis. O jeito era aproveitar a cidade enquanto dava, ou seja, até o próximo dia. O problema é que minha bateria já estava piscando em 10%, mais um pouco e eu desligava. Me forcei a sair da cama e caminhei através da cidade, morro acima, até chegar na Basílica Notre Dame de Fourvière. A basílica é linda, e tem uma vista bacana da cidade, mas eu já não estava curtindo. Minhas pernas, já fatigadas, estavam doendo muito. Estava na hora de arrumar um lugar para comer e descansar.


Parei em um dos muitos restaurantes da Rua Saint Jean, perto da catedral de mesmo nome, e pedi uma combinação típica, lentilhas com linguiça de entrada e uma caçarola de porco com repolho de prato principal. Para acompanhar, é claro, vinho da casa. Porco com vinho em um corpo já exausto? Já viu, né? Cambaleei de volta para o hotel e fui direto pra cama. Mal tive tempo de tirar a bota.


À noite carreguei meu corpo para fora outra vez e consegui assistir uma preview do festival feita com vários bonecos de luz que acendiam ou apagavam para contar uma história. Teve até luta à la Matrix. Comi um lanche na Praça Bellencour e fui dormir até o horário do check out na manhã seguinte. Confesso que saí de Lyon um pouco frustrada, mas fazer o quê? Às vezes a gente tem que se conformar que eventos disputados requerem mais planejamento.


Ir para Avignon logo pela manhã foi uma ótima pedida para melhorar meu humor. Diferentemente de Lyon, que continuava debaixo de chuva quando saí, o sol brilhava no interior da Provença. Nada como tirar o casaco pesado e sentir o calorzinho do grande astro em pleno inverno europeu para colocar um sorriso no rosto.


Avignon é conhecida principalmente como antiga residência dos papas católicos, que ali moraram desde a instalação de Clemente V em 1309. No entanto, o novo território da igreja só foi oficializado em 1348, quando Clemente VI adquiriu formalmente a cidade, na época pertencente à Sicília, e consequentemente, à rainha italiana Joanna I. Joanna tinha bons motivos para vender Avignon. Seu pai havia falecido, deixando a sucessão para ela em testamento. No entanto, Príncipe Andrew, seu primo de segundo grau, para quem sua mão havia sido prometida desde os seis anos, tinha grande interesse no trono. Andrew acabou assassinado e a rainha suspeita do crime. Apesar do envolvimento de Joanna na trama nunca ter sido provado, ter o papa do seu lado ajudaria nos futuros julgamentos. Assim, Avignon virou morada papal oficial até a Revolução Francesa, quando a região foi incorporada à França.


Ao todo, sete papas moraram no Palais des Papes (Palácio dos Papas), uma grande fortaleza gótica erguida no centro da cidade, hoje um museu. O ingresso custa treze euros, incluindo um áudio-guia que ajuda a visualizar a história do palácio, já que os quartos estão vazios e a maioria dos afrescos originais foi destruída em um incêndio ocorrido em 1413. O ticket também inclui uma visita à Ponte Saint-Bénezet, mais conhecida como Ponte de Avignon, construída sobre o rio Rhône entre 1171 e 1185. Apesar de ter somente quatro dos vinte e dois arcos originais, é interessante caminhar sobre a ponte ouvindo a maluca história de sua concepção, que inclui visões de um jovem pastor, Santo Bénezet (meio como Kevin Costner no filme O Campo dos Sonhos, “construa e eles virão!”)


Muito mais que os monumentos históricos, o mais gostoso de Provence são os detalhes, poder experimentar uma parte do cotidiano de quem mora na região. Já que eu não estava ficando em um hostel, sempre cheio de dicas interessantes do que fazer, perguntei a um couchsurfer da área o que ele achava mais legal em Avignon. Gilles respondeu para eu não deixar de comer no Ginette et Marcel, um pequeno bistrô na Praça des Corps-Saints. “É bom, incomum e barato.” Não poderia ter recebido conselho melhor.


A primeira coisa que você nota quando entra no Ginette et Marcel é a decoração retrô. Garrafas antigas como jarras d’água, um baleiro de boas vindas, um fogão à lenha que parece aquecer a sopa (na verdade os potes são elétricos, mas o fogão dá todo um charme). A comida é super simples, focando em sanduíches e vinhos típicos da região, entradas e sobremesas, mas o preparo é feito com devoção. Eu pedi um tartine à la tome de savoie, um sanduíche de presunto, tomates e queijo francês, salada de nozes com mostarda dijon e um vinho para acompanhar. Depois de terminar o prato principal e tomar uma segunda taça de vinho, ainda experimentei a Le Temps des Cerises, um doce com chocolate, biscoito e cereja em conserva que lembra o Pavê Tropical da minha mãe. A cada colherada eu voltava no tempo... Lá estava eu, em pleno natal, ajudando mamãe a compor o pavê, intercalando o biscoito champagne úmido com uma camada de mousse de chocolate e abacaxi em calda picado. Essa é a beleza da comfort food, além do prazer sensorial, ela alimenta uma fome emocional.


Eu estava adorando Avignon, mas na manhã seguinte recebi sinais de que era hora de ir embora. Seis sinais, para ser mais precisa, cinco picadas de bedbugs e o culpado do crime, ainda com meu sangue, na cama do hotel. Levei o inseto morto para o cara da recepção, que não fez nada, além de resmungar algumas palavras em francês (são poucos hotéis fora de Paris onde o povo fala inglês). Pronto, hora de pegar o trem. Acabei decidindo ir para Nîmes, porque ficava na direção de Montpellier, meu próximo destino, e porque lá tinha um Youth Hostel estilo fazenda, onde eu podia descansar. Por mais que a moça do albergue insistisse que valia a pena visitar o centrinho, tudo o que eu queria era dormir, assistir programas idiotas na TV, e ficar de bobeira. O sudeste da França sem dúvida é lindo, mas as noites mal dormidas em Lyon e Avignon estavam começando a fazer efeito. Era melhor ficar um dia à toa e depois, como Johnnie Walker, keep walking.


O que pude perceber é que viajar pelo interior da França não é tão fácil quanto em outros países europeus. Apesar de receber tantos visitantes quanto à Itália, são poucas as cidades fora de Paris que tem hostels. E quando tem, geralmente é uma única opção naquele estilo albergue-de-filme-de-terror: feio, longe da cidade, sem comodidades para o viajante e se bedbugs for a coisa mais assustadora que você encontrar por lá, tá no lucro. O jeito é ficar em pousadinhas ou hotéis baratinhos, o que à primeira vista pode parecer excelente, já que você não divide o quarto ou banheiro com ninguém. O problema é que para viajantes solos esta nunca é a melhor opção, a não ser que você esteja em uma viagem espiritual, daquelas com votos de silêncio.

A outra dificuldade é que a SCNF tem monopólio da malha ferroviária do país, o que em média resulta em um aumento de 225% nas passagens em relação à Itália. O trem de Roma para Nápoles, uma distância de 226 km, custa 20 euros, enquanto o trem de Paris para Tours (207 km) custa 45 euros. Somando o aumento do custo da passagem, mais o aumento dos hotéis (hostels também são sempre mais baratos), sobra menos dindin para os passeios realmente bacanas. Então, aqui vai mais um conselho para quem quiser se aventurar pelas cidades francesas: traga um amigo e pense em alugar um carro.

Mesmo com menos dinheiro e fazendo voto de silêncio, queria que minha última parada na França refletisse o clima gostoso do interior do país. Montpellier, uma pequena cidade apenas algumas horas da Espanha, seria o destino perfeito para aproveitar as típicas marchés de Noel, a soberba gastronomia e passear entre os prédios históricos uma última vez. Foram dois dias tranquilos, aproveitando os prazeres simples da vida, um bom vinho, um bom café e uma ótima comida. Mas agora deu de retiro espiritual, né? Hora de deixar os franceses e agitar as coisas na Espanha!

Fotos Lyon: http://mudnews.multiply.com/photos/album/228/228

Fotos Avignon: http://mudnews.multiply.com/photos/album/229/229

Fotos Montpellier: http://mudnews.multiply.com/photos/album/230


Muita gente não gosta da época de natal. Uns dizem que a data é extremamente comercial, outros ficam muito melancólicos com a chegada do final do ano. Eu não sou uma dessas pessoas. Eu ADORO o natal. Acho muito gostoso comprar lembranças ou só mandar um alô para quem eu gosto. Não faço isso só no natal, mas acho a data outra boa oportunidade para dizer, “ei, você é importante na minha vida.” E a decoração! Eu babo por luzinhas de natal, para mim elas iluminam a parte da nossa alma que continua criança. Bom, cada um confere o significado que quer a essas coisas, e esse é o meu. Mas acho que na França o sentido é mais ou menos o mesmo, ou assim me pareceu principalmente quando saí de Paris em direção ao sudoeste do país.

Minha primeira parada foi Tours, uma cidade de 142 mil habitantes, a maior do Vale do Loire. Apesar de ficar a somente 240 km de Paris, Tours é outro mundo. A antiga cidade cresceu ao redor de dois povoados antigos: o lugar de peregrinação ao redor da tumba do bispo S. Martin do século IV, em Vieux Tours, e o povoado romano do bairro da catedral. Os dois estão conectados por uma estrada romana, hoje Rues du Commerce e Colbert.  

O legal é que o centro histórico de Tours conseguiu sobreviver aos bombardeios dos tempos de guerra, fazendo com que a cidade mantivesse um look cinematográfico, repleto de casas medievais de estrutura de madeira e torres de pedra. Porém, mesmo com as fachadas históricas, Tours tem um espírito jovem, com muitos estudantes zanzando pelas ruas e pela feirinha de natal, lojas modernas e barzinhos que ficam lotados durante o happy hour.

Também conhecida como Jardim da França, a cidade faz valer o apelido, espelhando a beleza de seus jardins e dos châteaux do Vale do Loire, sempre coroados com flores e áreas verdes. Como estava louca para ver de perto a região, reservei um passeio de um dia que passava por quatro desses pequenos castelos, o Château de Chenonceau, o Château Royal (na verdade em Amboise), Chenervy e Chambord, cada um com uma história interessantíssima.

Me apaixonei por Chenonceau assim que o guia começou a contar sua história, que envolve Catarina de Médici, a rainha italiana que influenciou a cozinha francesa. O rei da França, Henri II, presenteou o château para sua amante Diana Poitiers, conhecida na época como “a favorita.” O rei na verdade nunca se interessou pela esposa, sendo fiel ao seu romance com Diana, 20 anos mais velha. Não é preciso dizer que Catarina não gostou nadinha dessa prova indiscreta de amor. Em 1559, veio a oportunidade de revanche. Nesse ano, Henri morre em combate e Catarina, agora no poder da França, retoma as jóias da coroa oferecidas à Diana e a expulsa da propriedade. Em troca, a rainha repassa à ex-amante do rei o Château Chaumont sur Loire, uma bonita edificação, mas que acreditava-se ser mal assombrada na época. (Para alguém que não tenha lido o texto sobre Florença, fica a moral da história: nunca importune um Médici).

O interessante é que apesar de Catarina ter reformado Chenonceau à altura da corte, incluindo uma nova galeria para bailes (construído por cima da ponte que ligava o château ao jardim de Diana) e novas instalações, o teto do quarto principal, que pertenceu a Henri II, ainda carrega as iniciais do rei e da rainha, o H e o C, que quando entrelaçados formam o D de Diana. Realmente não há como se apagar de todo o passado.

Saindo de Chenonceau, passamos por Amboise para visitar o Château Royal, que pertenceu a vários reis, incluindo François I, considerado patrono da renascença. Em dezembro de 1515, Leonardo da Vinci se hospedou na propriedade como convidado de François e lá foi convencido a se instalar na cidade, após o rei presenteá-lo com o castelo Clos Lucé. Leonardo, então com 64 anos, muda-se para Amboise levando consigo três quadros, Mona Lisa, Sant’ana e São João Batista, além do seu companheiro de vida, Francesco Melzi, a quem deixou toda a sua obra. Acaba morrendo na cidade, já cidadão francês, como “primeiro pintor, engenheiro e arquiteto do rei da França e mecânico do Estado Francês,” depois de ser desprezado na Itália, seu país de origem. Corre a história que a morada de Leonardo era conectada ao Château Royal por uma passagem subterrânea para facilitar encontros românticos entre o artista e o rei, mas os guias afirmam que isso é somente fantasia popular. Depois do reinado de François I, Henri II e Catarina de Médici também viveram no castelo com seus filhos.

A cidade de Amboise é muito bonitinha, e além dos dois castelos, possui várias casas interessantes construídas na rocha ao longo da estrada estreita que leva ao Clos Lucé. De fora, o que se vê são apenas portas e janelas, algumas antenas de televisão e chaminés. O vai e vem de moradores, porém, indica que viver ali não é tão estranho quanto parece. As casas chamadas “trogloditas” são muito comuns nessa região. Eram antigas cavernas oriundas das escavações de turfa, uma rocha calcária maleável usada na construção dos castelos e mansões das redondezas. Após anos de serviço, essas cavernas eram repassadas aos escavadores como pagamento pelo trabalho de extração, corte e transporte das pedras. Definitivamente, uma morada diferente.

Depois de meia horinha de van, chegamos aos arredores da cidade de Blois para conhecer mais um château, o Chenervy, que pertence há mais de seis séculos à família Hurault, uma família de financistas e oficiais que se destacaram a serviço de vários reis da França. Durante esse período, no entanto, o château escapou duas vezes das mãos da família: uma primeira vez no século XVI, quando Diane de Poitiers o adquiriu para supervisionar as obras em Chaumont sur Loire (o tal castelo amaldiçoado que Catarina de Médici lhe arrumou) e uma segunda vez no século XVIII, quando os herdeiros da época se desinteressaram da herança. Cheverny passou então pelas mãos de vários proprietários até 1825, quando Anne-Victor Hurault, Marquês de Vibraye, adquiriu novamente o castelo de seus ancestrais.

Além da história envolvendo o château, Cheverny também é conhecida pela caça de veneria (caça a cavalo com auxílio de cães). O canil do castelo abriga uma centena de cães franceses tricolores com o V de Vibraye marcado à tesoura do lado direito da barriga de cada cão. Apesar do canil ser regulamentado pelo código do meio ambiente, do código rural e do código da saúde pública, dá agonia ver tantos cachorros apinhados, principalmente na hora da alimentação, quando os cães se atropelam para comer a ração disposta em uma linha no chão.

Após a visita à Cheverny, seguimos em direção ao famoso castelo Chambord, idealizado como um retiro de caça pelo rei François I. Chambord impressiona pela arquitetura dos exageros, são 156 metros de comprimento, 56 metros de altura, 77 escadas, 282 chaminés e 426 cômodos. A silhueta do castelo lembra uma fortaleza medieval (um torreão central com quatro grandes torres, duas alas e uma muralha), porém construído em estilo renascentista italiano. Apesar da fachada seduzir os visitantes, o interior do castelo é meio pobre. Somente 60 quartos estão abertos para visitação e deles só 15 abrigam mobília ou quadros. O château é gelado por dentro e lembra mais um galpão vazio do que um castelo glorioso.  De todas propriedades visitadas, essa, com certeza, foi a mais decepcionante. Sem dúvida vale uma passagem por lá para admirar a estrutura exterior do castelo, mas eu teria me divertido mais fazendo um piquenique em seus jardins do que passando frio dentro de quartos vazios.

Como eu estava sem carro, a maneira mais prática de andar pelo Vale do Loire, acabei reservando o passeio pelos castelos no escritório de turismo de Tours. Por 48 euros (não incluindo o ingresso dos châteaux, que variam de 6,50 a 8,70 euros), você viaja com um guia em uma van, maximizando os castelos visitados em um dia. Para mim, foi mais que suficiente, mas alguém mais aficionado pode facilmente passar uma semana percorrendo as propriedades da região, que são inúmeras. Eu, na verdade, estava mais interessada em seguir viagem para conhecer um outro tipo de château, as vinícolas da região de Bordeaux (muitas vinícolas adotaram o nome château mesmo não possuindo um castelo devido a associação feita entre os vinhos de Bordeaux e os castelos que servem de sede para as grandes casas produtoras).

Considerada capital mundial da indústria de vinho, Bordeaux também consta como maior site urbano na lista de Patrimônio da Humanidade da UNESCO. Com um grande boulevard para pedestres, é muito fácil caminhar entre os belíssimos prédios neoclássicos e góticos que enfeitam a cidade conhecida entre os franceses por La Belle Au Bois Dormant (a bela adormecida). Além de apreciar a arquitetura magnífica, outro passeio bacana e barato é visitar os museus, que em Bordeaux tem entrada liberada para as coleções permanentes, uma boa opção depois de um dia inteiro visitando às vinícolas, passeio obrigatório para amantes de vinho como eu.

Bordeaux é a segunda maior área de cultivo de vinhos do mundo, com 284.320 acres de vinhedos e treze mil viticultores. Apenas a região do Languedoc, também na França, com 617.750 acres de vinhedos plantados, é maior. A produção anual é de mais de 700 milhões de garrafas, incluindo vinhos de mesa para o dia-a-dia, bem como os mais prestigiados da indústria.

A região vitivinícola é dividida em sub-regiões, entre elas Saint Émilion, Pomerol, Médoc e Graves. Como seria impossível visitar todas no tempo em que estaria por lá, decidi fazer um tour com degustação por Médoc, que tem quatro, dos cinco châteaux relacionados como tintos Premier Cru, alguns dos vinhos mais aclamados e caros que existem.

O meu tour passou por duas vinícolas excelentes, o Château Gruaud Larose e o Château Reverdi, onde eu pude tomar ótimos vinhos, com destaque para o complexo Sarget de Gruaud-Larose (St Julien) 2001. Depois de tanta bebeção e no food, terminei o dia na marché de Noel perto do hotel para jantar crepes típicos.

Curti muito os passeios pelos châteaux do Vale do Loire e de Bordeaux. Além dos tours, também adorei passear pelas duas cidades, repletas de enfeites de natal, prédios antigos e feirinhas natalinas que dão aquele sabor especial de final de ano à viagem. São lugares que recomendo para todo mundo, principalmente para os que viajam em casal ou com a família. E agora hora de arrumar a mala e voltar para Paris!

Fotos Vale do Loire: http://mudnews.multiply.com/photos/album/226/226 

Fotos Bordeaux: http://mudnews.multiply.com/photos/album/227/227


Blog EntryNov 30, '11 3:48 PM
for everyone

Três meses na estrada e posso dizer que já experimentei quase todo tipo de emoção, êxtase, medo, alegria, saudades... São tantas mudanças, que a gente já espera algumas surpresas no meio da viagem. Quer dizer, com exceção da que me aguardava em Paris.

Como eu já tinha visitado a cidade antes, a ideia era fugir dos pontos turísticos tradicionais e aproveitar mais o lado B de Paris. Para entrar no clima alternativo, o primeiro lugar da lista foi para lá de diferente: a maternidade onde o caçula do Sarkozy nasceu. Hã? Pois é.  Essa viagem está cada vez mais fantástica! A Vivi, minha super amiga que deixou Curitiba faz 6 anos, está grávida!!! Não só fiquei sabendo que serei titia, como pude acompanhar o primeiro ultrassom do feijãozinho mais lindo do mundo!

Sabe como é, o tempo passa, o tempo voa, a Poupança Bamerindus não existe mais e meus amigos viraram gente grande. É muito gostoso poder presenciar a felicidade de quem a gente gosta em novas fases da vida. Com certeza a notícia tornou minha passagem pela França ainda mais especial.

Depois da consulta com o médico, saímos para andar pela cidade maravilhosa. Como a Vivis mora no centro de Paris (na verdade do lado da Madeilene), passamos naturalmente pelo Arco do Triunfo, pela Roda Gigante e por Concorde, que tinha uma feirinha de natal super bonitinha onde eu fiz um pitstop para tomar um quentão. Paris nessa época do ano parece enfeitiçada. A decoração de natal está por toda a cidade, na fachada de lojas famosas, como a Galeria Lafayette, ou em toques minimalistas em pequenos restaurantes de bairro. Me senti uma criança, parando a cada 10 segundos para tirar fotos dos enfeites.

No dia seguinte, após resolver algumas burocracias (fui tirar o visto indiano), ainda andamos por Sacre Couer (cheia de falsos surdos-mudos romenos pedindo dinheiro para uma suposta “organização internacional”) e fomos conhecer Montmartre, o bairro cheio de barzinhos alternativos onde fica o famoso Moulin Rouge. Para coroar a manhã difícil, almoçamos num bistrô charmosinho com direito à música de piano ao vivo. Ah, “Parrí”, impossível não se apaixonar por você!

De todos os passeios turísticos conhecidos, o melhor, na verdade, é simplesmente caminhar pela cidade. Você topa com jóias escondidas nas ruas menos populares, como a incrível La Cure Gourmande, uma loja de biscoitos artesanais com um toque retro, onde você seleciona o que quiser e coloca naquelas caixinhas de metal em alto relevo da época das nossas avós.  Além da loja ser linda, os biscoitos são pecaminosos de bons!

Também é andando que você sente mais o espírito francês e a “cultura dos cafés,” parte integral da vida dos parisienses. Curiosamente, os cafés colocam todas as cadeiras da calçada voltadas para a rua, como em um estádio, de forma que as pessoas possam pegar sol durante o dia, ou ver o movimento à noite enquanto tomam um cálice de vinho.

Como capital e coração da França, Paris sempre oferece muitos eventos legais, que valem uma pesquisa de acordo com a época do ano. Enquanto eu estava por lá, por exemplo, aconteceu o  Salão de Vinhos de Produtores Independentes. Com quase 600 produtores de diversas regiões da França, a feira é imperdível para quem curte um bom vinho! A maioria das lojas especializadas oferece o convite sem custo, mas se você não encontrar alguma, não se preocupe, o ingresso custa somente 6 euros, incluindo a taça de degustação, um ótimo souvenir de viagem. E para quem tem vontade de participar, mas bóia quando alguém comenta dos taninos do cabernet sauvignon, o salão ainda oferece aulas de degustação três vezes por dia. Fiquei impressionada com a dimensão do evento! Com stands até perder de vista e uma multidão de franceses que aproveita a feira para conhecer novas vinícolas e comprar vinhos premiados com desconto.

Já deu para perceber que a gastronomia é muito importante para os franceses, né? A ironia é que a cozinha francesa como conhecemos hoje remonta a uma rainha de origem italiana, Catarina de Medici. Lembra da história dos Medicis que contei na minha passagem por Florença? A influência da família era sentida muito além da Toscana. Os Medicis não só produziram excelentes banqueiros, como também dois papas, Leão X e Clemente VII, e duas rainhas francesas. Catarina, a rainha dessa história, foi coroada ao casar-se com Henri, futuro Duque de Orleans e rei da França. Ao chegar em seu novo país, no entanto, Catarina estranhou a comida francesa, ordenando que seus chefs se mudassem para lá. Aos poucos, a rainha Medici começou a organizar técnicas e receitas (o famoso profitérole é criação de um de seus chefs), que foram repassadas de geração em geração, se tornando parte intrísica da história da França. Os Medicis realmente não eram pouca coisa, até a criação da etiqueta à mesa foi atribuida às novas regras sociais estabelecidas por Catarina em seus inúmeros banquetes na corte. Antes dela, por exemplo, não existia garfo no país.

Como foodie convicta, eu não poderia deixar à cidade sem provar essa culinária cheia de história. Então, na minha última noite, eu e Vivis reservamos uma mesa no concorrido Comp Toir de L’Arc, um pequeno restaurante perto do Arco do Triunfo. O lugar parecia uma balada, com filas na porta e um monte de gente bonita à caça. É que o Comp tem uma comida deliciosa e, pasmem!, super barata. Me esbaldei no confit de canard com batatas e ainda pedi profiteróles de sorvete de sobremesa (desgraça pouca é bobagem)! Yummm! Para aliviar a consciência e o estômago antes de dormir, andamos até a Torre Eiffel, que consegue ficar mais magnífica iluminada à noite. Foi a cereja do bolo.

Apesar de ter pego o trem no dia seguinte em direção a Tours, no vale do Loire, não deixei Paris de todo para trás. Como tenho que buscar o visto indiano daqui uns dias, farei um grande esforço para voltar à cidade e sair novamente com a Vivis. Difícil essa vida, viu? Rs.

Fotos: http://mudnews.multiply.com/photos/album/225/225


Blog EntryNov 24, '11 1:35 PM
for everyone

Eu devia começar esse texto escrevendo sobre a Suíça, já que é para lá que fui depois de Milão. Mas quero primeiro falar de amigos. Viajar sozinha tem sido uma ótima experiência para conhecer muita gente bacana e fazer o que quero no horário que der na telha. Só que a gente fica muito pensativa também, ou sou eu que penso demais, o que é bem possível. O fato é que eu cheguei em Lucerna com saudades dos meus amigos mas, como sempre, aberta para fazer novas amizades, a começar pelo casal de couchsurfers que me hospedaria na cidade.

Bom, foi aí que a vida me relembrou um aprendizado: não é só nossa vontade que faz uma amizade nascer, ou mesmo durar. O casal de suíços, embora muito educados, eram bem estranhos, dentro da minha concepção brasileira de hospitalidade, é claro. Eu cancelei o hostel e escolhi surfar com eles porque o cara tinha feito uma volta ao mundo de bicicleta... Parecia super interessante! Depois de um ano e meio só de bike e mochila, achei que escutaria ótimas histórias e levaria mais alguns aprendizados para a estrada. Neca de pitibiriba. Por mais que eu sorrisse, perguntasse, fizesse elogios, o papo não engatava. Na verdade a namorada do meu host mal abriu a boca e nunca sorria, apesar dos meus esforços.

Passei o dia pensando no que fazer, com muitas saudades dos meus amigos, da boa energia de uma simples conversa. Postei como estava me sentindo no facebook e, de repente, lá estavam eles de novo, mandando boas vibrações. Me senti recarregada (muuuuito obrigada, friends!) e saí para curtir o sol que tinha acabado de dar o ar da graça. Foi aí que eu comecei a ver a beleza da cidadezinha, que além de ser conhecida por vários festivais de música, parece saída de um conto de fadas, cheia de pontes antigas, cisnes e folhas do outono espalhadas pelo chão.

Lucerna também tem alguns lugares interessantes para conhecer, como o Monumento do Leão, uma grande escultura idealizada por Bertel Thorvaldsen, um escultor dinamarquês, em homenagem aos guardas suíços mortos na Revolução Francesa de 1792. O leão tem um pedaço de lança atravessado em seu torso e uma expressão agonizante desconcertante que impressionou até Mark Twain: “é o mais triste e tocante pedaço de pedra do mundo.”

Perto da cidade também fica a montanha Pilatus (2128 m). Apesar do passeio ser caro (62 euros o percurso completo de ônibus e teleféricos),  vale a pena subir para admirar a vista e pegar um pouco de sol, já que Lucerna fica constantemente debaixo de neblina nessa época do ano. Os suíços, na verdade, vão sempre para lá para fugir do frio, uma espécie de praia na montanha!

Depois de dois dias em Lucerna, fui feliz pegar o trem para Rheinfelden, uma cidadezinha de 10 mil habitantes, dentre eles uma mais especial, minha grande amiga Jujubets Furlan. Ju e eu dividimos muita coisa, o trabalho na Kraft, a paixão pela vida, a ânsia pela mudança e a personalidade forte. Seriam dois dias corridos, mas muito intensos, afinal tínhamos alguns anos de papo para botar em dia.

Eu tinha começado esse texto falando de amizade, certo? E vou terminar falando dela também. Melhor ainda que visitar mil monumentos em países diferentes é atravessar meio mundo e ver que o carinho entre amigas não termina por causa da distância ou do tempo. É abrir um vinho (ok, dois), dar as mesmas risadas, o mesmo abraço apertado e poder olhar no olho daquela pessoa que realmente torce por você e se sentir em casa (mesmo na Suíça). Thank you, Jujubets.

Fotos: http://mudnews.multiply.com/photos/album/224/224


© 2012 Multiply · English · About · Blog · Terms · Privacy · Corporate · Advertise · API · Help · Sitemap

Template design Copyright © 2005 Remi Prevost Some rights reserved.